sábado, 21 de março de 2020

[0215] Uma reflexão de Jorge Almeida Fernandes

Como se o professor da mensagem anterior dissesse aos seus alunos, fechados em casa por tempo indeterminado:

Desta vez o texto a ler é este, mas não pensem muito: imaginem o mundo em que gostariam de viver depois desta crise; e procurem fundamentar as razões para as mudanças que serão necessárias e o modo como as podem fazer acontecer.

Efeito colateral do coronavírus: o regresso do Estado

Estas semanas trouxeram a convicção, certa ou ilusória, de que a pandemia marca uma ruptura mais funda do que o 11 de Setembro ou a crise financeira de 2008. Será mesmo uma ruptura de época.

Estamos numa viragem de época. De momento, ocupam-nos a sobrevivência e a contenção da epidemia. Os humanos são curiosos e, mesmo no pico da crise, não conseguem deixar de imaginar que mundo vai nascer da pandemia. Seria estúpido morrer agora - e ainda mais se for por culpa própria - sem ter sequer uma pista sobre esse “mundo depois do coronavírus”. O sentimento dominante é o de que assistimos ao fim de uma era e à inauguração de outra. Certo, parece ser o reforço do papel do Estado.
Explico. Num texto publicado no dia 8 de Fevereiro (As duas pestes de 2000), escrevi: “A grande dúvida é saber se a epidemia se mantém como crise sanitária internacional ou se vai transformar-se num fenómeno geopolítico susceptível de alterar os equilíbrios do sistema internacional.”
A resposta dos factos foi rápida: O coronavírus pode remodelar a ordem global – é o título de um artigo da revista Foreign Affairs, análogo a muitos outros. Estas semanas trouxeram a convicção, certa ou ilusória, de que o coronavírus marca uma ruptura mais funda do que o 11 de Setembro ou a crise financeira de 2008. Será mesmo uma ruptura de época. O colunista americano Thomas Friedman propôs há dias, no New York Times, um título que exprime o este novo sentimento: A nossa nova divisão histórica: A.C e D.C – o mundo Antes do Corona e Depois do Corona. (Em inglês, B.C e A.C. de Before e After). Friedman não tem dúvidas sobre a ruptura mesmo se não sabe desenhar os traços do futuro.

A ordem global
Descontada a retórica, temos razões para pensar que vai mudar muito mais do que os equilíbrios entre as potências. Este é um terreno em que é inútil especular, pois estamos em plena pandemia e não no seu fim. Há um mês, a imagem da China estava destroçada. Hoje, Pequim está apressadamente a recuperar o seu soft power, tentando assumir a liderança da cooperação no combate à Covid-2, lugar ostensivamente deixado vazio pelos Estados Unidos. Teremos outras surpresas nas próximas semanas.
Paralelamente, a explosão do coronavírus na América baralhou as cartas políticas. É um terreno em que Trump não se sabe mover e em que, desde o início, perdeu toda e qualquer autoridade. Os economistas prevêem uma recessão até ao fim do ano, o que faz lembrar um velho e pragmático princípio: o Presidente em funções será reeleito se a economia estiver a crescer. Trump saiu ileso do processo de impeachment mas o coronavírus subverteu todos os seus planos de campanha.
Por tudo isto, é muito cedo para imaginar as mudanças nas relações de força entre as potências, designadamente na competição Pequim-Washington.
A previsível recessão dará aos Estados um motivo para “limitar a globalização”. É um diagnóstico crescentemente partilhado por políticos e economistas. Os Estados europeus são os primeiros a assinalar a necessidade de travar a deslocalização do trabalho e a autonomia da esfera financeira. Mas, apesar das pulsões proteccionistas, é impossível regressar a um mundo de espaços autárcicos, como nos anos 1930.
A emergência sanitária e as quarentenas conduzirão inevitavelmente a uma dramática crise económica. Não é por acaso que se multiplicam as propostas de um novo Plano Marshall para a Europa, o que pressupõe uma mudança no paradigma económico dominante. Subitamente, a França e a Itália parecem decididas a salvar as suas últimas “jóias”. O ministro da Economia francês admite recorrer à sua nacionalização. “Para grandes males, grandes remédios”, dizem economistas. A crise sanitária força a repensar o papel do Estado na sociedade. E a crise económica, cujos efeitos ainda mal se sentem, vai impor um regresso da intervenção estatal na economia.
É possível que o futuro da União Europeia se venha a jogar num plano inesperado: ser capaz ou não de voltar a pensar a longo prazo, com o horizonte da década e abandonar a “gestão corrente”. Este é o momento mais baixo da UE. Resta saber se, perante a emergência, e depois dela, os grandes desafios vão reensinar aos europeus a retomar a “grande política”.
Regressando à política internacional, cito um comentário do politólogo americano Stephen Walt: “Primeiro, e muito obviamente, a presente emergência lembra-nos que os Estados são ainda os principais actores da política global. Até há poucos anos, académicos e colunistas sugeriam que os Estados estavam a tornar-se menos relevantes nos assuntos mundiais substituídos por outros actores ou forças sociais. (…) No entanto, quando crescem os novos perigos, os humanos olham primeiro, e principalmente, para os governos nacionais buscando protecção.”

O princípio de Quarantelli
Na Itália, que continua a funcionar como laboratório europeu, a epidemia não beneficiou o populismo. Provocou uma onde de “orgulho nacional” e reuniu o país em volta do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, que recolhe o apoio de 71% dos italianos, a taxa mais alta dos últimos dez anos.
Para lá do apoio ao governo, um inquérito do Instituto Demos indica uma natural e unânime aprovação do sistema sanitário. Mas indica também uma avaliação positiva das instituições -  incluindo políticos e jornalistas. A antipolítica saiu da cena. “Ao contrário do passado, quase todo o país se reuniu em volta do primeiro-ministro e do governo”, escreve o sociólogo Ilvo Diamanti, responsável pelo inquérito.
“A emergência do vírus, além das vítimas, gerou medo. E produziu também um resultado, talvez inesperado, gerando um clima de opinião pública imprevisível até há poucas semanas. Isto é, reconstruiu a unidade nacional.”
Antes, o alvo do medo foi o “outro”, o “estrangeiro” que vem de África ou de outras paragens. Os italianos têm medo. Mas agora o “outro”, resume Diamanti, tornou-se um “inimigo invisível”, que não pode ser parado fechando as fronteiras.
Na segunda-feira, La Repúbblica, inaugurou a semana com um título: A primeira coisa bela de segunda-feira 16 de Março de 2020. Era uma evocação de Enrico Quarantelli, um sociólogo americano que dedicou a sua vida científica ao estudo das reacções aos desastres. Ao contrário do senso comum, demonstrou que os acontecimentos catastróficos trazem à tona o que a humanidade tem de melhor. “A solidariedade prevalece sobre o conflito. A sociedade torna-se mais democrática.” É sempre útil ler os clássicos.

Fonte: artigo de opinião de Fernandes (2020)

quarta-feira, 18 de março de 2020

[0214] Uma reflexão de Boaventura de Sousa Santos


Como se um professor dissesse aos seus alunos, estando a sua escola fechado por tempo indeterminado:

Leiam, pensem, enviem-me o que pensam, e depois encetemos uma teleconversa sobre o momento que estamos a viver.

Vírus: tudo o que é sólido se desfaz no ar

Como foram expulsas do sistema político, as alternativas irão entrar cada vez mais frequentemente na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandémicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros. Ou seja, as alternativas voltarão da pior maneira possível.

Existe um debate nas ciências sociais sobre se a verdade e a qualidade das instituições de uma dada sociedade se conhecem melhor em situações de normalidade, de funcionamento corrente, ou em situações excepcionais, de crise. Talvez os dois tipos de situação sejam igualmente indutores de conhecimento, mas certamente permitem-nos conhecer ou relevar coisas diferentes. Que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus?

A normalidade da excepção. A actual pandemia não é uma situação de crise claramente contraposta a uma situação de normalidade. Desde a década de 1980 – à medida que o neoliberalismo se foi impondo como a versão dominante do capitalismo e este se foi sujeitando mais e mais à lógica do sector financeiro – o mundo tem vivido em permanente estado de crise. Uma situação duplamente anómala. Por um lado, a ideia de crise permanente é um oximoro, já que, no sentido etimológico, a crise é por natureza excepcional e passageira e constitui a oportunidade para ser superada e dar origem a um melhor estado de coisas. Por outro lado, quando a crise é passageira, ela deve ser explicada pelos factores que a provocam. Mas quando se torna permanente, a crise transforma-se na causa que explica tudo o resto. Por exemplo, a crise financeira permanente é utilizada para explicar os cortes nas políticas sociais (saúde, educação, previdência social) ou a degradação dos salários. E assim impede que se pergunte pelas verdadeiras causas da crise. O objectivo da crise permanente é não ser resolvida. Mas qual é o objectivo deste objectivo? Basicamente, são dois os objectivos: legitimar a escandalosa concentração de riqueza e impedir que se tomem medidas eficazes para impedir a iminente catástrofe ecológica. Assim temos vivido nos últimos 40 anos. Por isso, a pandemia vem apenas agravar uma situação de crise a que a população mundial tem vindo a ser sujeita. Daí a sua específica periculosidade. Em muitos países, os serviços públicos de saúde estavam há dez ou 20 anos mais bem preparados para enfrentar a pandemia do que estão hoje.

A elasticidade do social. Em cada época histórica, os modos dominantes de viver (trabalho, consumo, lazer, convivência) e de antecipar ou adiar a morte são relativamente rígidos e parecem decorrer de regras escritas na pedra da natureza humana. É verdade que eles se vão alterando paulatinamente, mas as mudanças passam quase sempre despercebidas. A irrupção de uma pandemia não se compagina com tal tipo de mudanças. Exige mudanças drásticas. E, de repente, elas tornam-se possíveis como se sempre o tivessem sido. Torna-se possível ficar em casa e voltar a ter tempo para ler um livro e passar mais tempo com os filhos, consumir menos, dispensar o vício de passar o tempo nos centros comerciais, olhando para o que está à venda e esquecendo tudo o que se quer mas só se pode obter por outros meios que não a compra. A ideia conservadora de que não há alternativa ao modo de vida imposto pelo hipercapitalismo em que vivemos cai por terra. Mostra-se que só não há alternativas porque o sistema político democrático foi levado a deixar de discutir as alternativas. Como foram expulsas do sistema político, as alternativas irão entrar cada vez mais frequentemente na vida dos cidadãos pela porta dos fundos das crises pandémicas, dos desastres ambientais e dos colapsos financeiros. Ou seja, as alternativas voltarão da pior maneira possível.

A fragilidade do humano. A rigidez aparente das soluções sociais cria nas classes que tiram mais proveito delas um estranho sentimento de segurança. É certo que sobra sempre alguma insegurança, mas há meios e recursos para os minimizar, sejam eles os cuidados médicos, as apólices de seguro, os serviços de empresas de segurança, a terapia psicológica, as academias de ginástica. Este sentimento de segurança combina-se com o de arrogância e até de condenação para com todos aqueles que se sentem vitimizados pelas mesmas soluções sociais. O surto viral interrompe este senso comum e evapora a segurança de um dia para o outro. Sabemos que a pandemia não é cega e tem alvos privilegiados, mas mesmo assim cria-se com ela uma consciência de comunhão planetária, de algum modo democrática. A etimologia do termo pandemia diz isso mesmo: todo o povo. A tragédia é que neste caso a melhor maneira de sermos solidários uns com os outros é isolarmo-nos uns dos outros e nem sequer nos tocarmos. É uma estranha comunhão de destinos. Não serão possíveis outras?

Os fins não justificam os meios. O abrandamento da actividade económica, sobretudo no maior e mais dinâmico país do mundo, tem óbvias consequências negativas. Mas tem, por outro lado, algumas consequências positivas. Por exemplo, a diminuição da poluição atmosférica. Um especialista da qualidade do ar da agência especial dos EUA (NASA) afirmou que nunca se tinha visto uma quebra tão dramática da poluição numa área tão vasta. Quererá isto dizer que no início do século XXI a única maneira de evitar a cada vez mais iminente catástrofe ecológica é por via da destruição massiva de vida humana? Teremos perdido a imaginação preventiva e a capacidade política para a pôr em prática?

É também conhecido que, para controlar eficazmente a pandemia, a China accionou métodos de repressão e de vigilância particularmente rigorosos. É cada vez mais evidente que as medidas foram eficazes. Acontece que a China, por muitos méritos que tenha, não tem o de ser um país democrático. É muito questionável que tais medidas pudessem ser accionadas ou accionadas com igual eficácia num país democrático. Quer isto dizer que a democracia carece de capacidade política para responder a emergências? Pelo contrário, The Economist mostrava no início deste ano que as epidemias tendem a ser menos letais em países democráticos devido à livre circulação de informação. Mas como as democracias estão cada vez mais vulneráveis às fake news, teremos de imaginar soluções democráticas assentes na democracia participativa ao nível dos bairros e das comunidades e na educação cívica orientada para a solidariedade e cooperação, e não para o empreendedorismo e competitividade a todo custo.

A guerra de que é feita a paz. O modo como foi inicialmente construída a narrativa da pandemia nos media ocidentais tornou evidente a vontade de demonizar a China. As más condições higiénicas nos mercados chineses e os estranhos hábitos alimentares dos chineses (primitivismo insinuado) estariam na origem do mal. Subliminarmente, o público mundial era alertado para o perigo de a China, hoje a segunda economia do mundo, vir a dominar o mundo. Se a China era incapaz de prevenir tamanho dano para a saúde mundial e, além disso, incapaz de o superar eficazmente, como confiar na tecnologia do futuro proposta pela China? Mas terá o vírus nascido na China? A verdade é que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a origem do vírus ainda não está determinada. É, por isso, irresponsável que os meios oficiais dos EUA falem do “vírus estrangeiro” ou mesmo do “coronavírus chinês”, tanto mais que só em países com bons sistemas públicos de saúde (os EUA não são um deles) é possível fazer testes gratuitos e determinar com exactidão os tipos de influenza ocorridos nos últimos meses. Do que sabemos com certeza é que, muito para além do coronavírus, há uma guerra comercial entre a China e os EUA, uma guerra sem quartel que, como tudo leva a crer, terá de terminar com um vencedor e um vencido. Do ponto de vista dos EUA, é urgente neutralizar a liderança da China em quatro áreas: o fabrico de telemóveis, as telecomunicações da quinta geração (a inteligência artificial), os automóveis eléctricos e as energias renováveis.
A sociologia das ausências. Uma pandemia desta dimensão causa justificadamente comoção mundial. Apesar de se justificar a dramatização é bom ter sempre presente as sombras que a visibilidade vai criando. Por exemplo, os Médicos Sem Fronteiras estão a alertar para a extrema vulnerabilidade ao vírus por parte dos muitos milhares de refugiados e imigrantes detidos nos campos de internamento na Grécia. Num desses campos (campo de Moria) há uma torneira de água para 1300 pessoas e falta sabão. Os internados não podem viver senão colados uns aos outros. Famílias de cinco ou seis pessoas dormem num espaço com menos de três metros quadrados. Isto também é Europa – a Europa invisível.

Fonte: artigo de opinião de Santos (2020)

sábado, 29 de fevereiro de 2020

[0213] «La Belle et la Bête», ou o Analógico e o Digital


A Bela e o Monstro é um conto de fadas francês escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740, e adaptado alguns anos mais tarde (1756) por Jeanne-Marie Le Prince de Beaumont. Abordando o encontro entre seres radicalmente diferentes, e tendo por desfecho o seu inesperado entendimento, este conto foi por diversas vezes retomado no século XX pelo cinema e pela televisão, conforme o momento vivido e o público esperado:

Ilustração de Anne Anderson

Não sei qual virá a ser o desfecho do desencontro / encontro entre o Analógico e o Digital (dois nomes masculinos, contrariamente a Belle e Bête, dois nomes femininos). Mas pareceu-me muito interessante o desafio que situações deste tipo colocam aos Professores e, em sentido mais lato, a qualquer Cidadão, dada a omnipresença do desencontro / encontro entre culturas hoje tão premente nas escolas como nas nossas sociedades.

O exemplo que me levou a esta argumentação é o da identificação de plantas. Já existem diversas aplicações para SmartPhones que, perante uma planta que desconhecemos, nos dão informações sobre ela. Uma dessas aplicações (https://identify.plantnet.org), ligada ao projecto internacional PlantNet, também possui uma versão para usar num computador onde estejam guardadas fotografias de plantas. Experimentei com esta fotografia, tirada em 2008, onde se vê uma rude mas bela planta que se estira sobre os xistos que ladeiam o rio Reno, na região do Rheingau:


A aplicação apresentou-me doze hipóteses de identificação (um primeiro bom sinal), sendo aquela que considerou mais provável (com uma certeza de 3,05 em 5, ou seja, um pouco acima dos 60 %) a espécie Sedum cepaea, L., da família das Crassulaceae (dois terços das doze hipóteses apresentadas pertencem, aliás, a esta família). Ao fim de doze anos guardada numa pasta designada «Para classificar», consegui delimitar a espécie a que esta planta pertence. Nada mau.

E quanto aos antigos instrumentos de identificação, baseados na observação directa? Genericamente, eles são chamados chaves dicotómicas, designação que resulta das sucessivas perguntas que colocamos àquilo que é observado e que vão dividindo por dois as hipóteses de identificação. Para classificar uma planta podem ser escolhidas como primeiras perguntas as que se encontram nos seguintes rectângulos (com fundo verde), de que resultarão os primeiros grandes grupos identificados (escritos a verde), seguindo-se-lhes novas perguntas que precisarão a identificação até se chegar à espécie:


Uma grande vantagem deste procedimento, analógico, comparativamente ao da aplicação digital, é que somos nós quem observa a planta, podendo assim aprender muito sobre ela. No entanto, ele tem a desvantagem de a maioria das pessoas não estar preparada para responder a muitas das perguntas que a chave dicotómica lhe faz.
O procedimento digital tem vantagens onde o anterior tem desvantagens e tem vantagens onde o anterior tem vantagens, pelo que a conclusão que parece óbvia é: aprendemos a conjugar os métodos analógicos com os digitais!

Talvez possamos extrapolar, a partir deste simples exemplo em que apenas queremos conhecer melhor a Natureza, que nas questões que envolvem os desencontros / encontros culturais o melhor é admitir haver sempre algo a aprender com aqueles que são diferentes de nós – é admitir que, no fim, acabaremos por descobrir o muito que há em comum entre todos.

Fonte: Wikipédia (informação sobre a origem do conto e ilustração de Anne Anderson)

Fotografia: Pedro Esteves

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

[0212] O controlo burocrático dos profissionais e dos cidadãos


Nas mensagens «0208» e «0210» não hesitei, por experiência própria, em admitir a existência de um descontentamento em relação à escola:


Li há dias no jornal «Público» um artigo de opinião que reforçou a minha convicção de que esse desconforto não diz respeito apenas à educação, fazendo antes parte de um fenómeno muito mais abrangente. O autor deste artigo, o médico Barros Veloso, interroga-se sobre se os sinais de alarme e o descontentamento que existem em relação ao Sistema Nacional de Saúde (SNS) são, ou não são, sintomas que nos estão a chamar a atenção para os aspectos negativos das profundas “transformações” cujos efeitos só agora começaram a fazer-se sentir. E descreve-as assim:

“Durante as últimas quatro décadas deram-se grandes mudanças: a Medicina foi substituída pela Saúde e, a reboque, o médico transformou-se em profissional de saúde e o doente em utente.”
“(…) a Medicina, como Arte e Ofício, dirigida ao doente individual e irrepetível que procura solução para a sua fragilidade, foi perdendo terreno para dar lugar à Saúde cujo objectivo, segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde], é o bem-estar físico, psicológico e social, ou seja, uma felicidade utópica e colectiva que compete aos políticos assegurar.
A Medicina do doente concreto foi sendo substituída pela Saúde que, inspirada nas modernas ciências sociais, trata doenças abstractas em consultas de hipertensão, de colesterol, de osteoporose, de electrocardiogramas e de análises, a cargo de médicos que, sem tempo para atender doentes, os enviam para as urgências. Em vez da Medicina que valoriza o médico-de-carreira e o médico assistente, temos agora a Saúde do médico anónimo, do médico-contratado, do médico-à-hora. Em vez da Medicina que faz profilaxia das doenças cuja causa conhece, temos a Saúde que anuncia planos ilusórios e globais de prevenção de doenças cujas causas se desconhecem. Em vez da Medicina que avalia as urgências caso-a-caso, a Saúde que obedece a algoritmos. Em vez da Medicina que analisa as mortes evitáveis para as evitar, temos a Saúde que as investiga para sancionar.
Surgiu assim um novo paradigma em que os médicos foram despojados de poder e em que as decisões foram transferidas para os administradores, os gestores, os políticos e, com a entrada em força das empresas privadas, o mundo dos negócios.
Pelo caminho muito se perdeu: o médico de proximidade, o médico assistente, o médico de cabeceira, que referencia o doente para outros médicos sem nunca o perder de vista, e o médico disponível, com tempo e capacidade para discutir exames complementares com os colegas das técnicas. Tudo isso, que é essencial, foi desaparecendo em nome da produtividade e de uma suposta eficácia.
As consequências destas mudanças não são fáceis de traduzir em estatísticas, elaboradas quase sempre por burocratas que ignoram dados que só os médicos sabem interpretar, a saber: erros de diagnóstico evitáveis, exames desnecessários, efeitos iatrogénicos provocados por excessos de medicação, falta de tempo para pensar, para reflectir, para ensinar. Mas é a avaliação destes dados que melhor permite conhecer resultados e estabelecer a separação entre Medicina, assente numa relação médico-doente, e Saúde, que trata de doenças, percentagens, estatísticas.
Por tudo isto, e face às ameaças que pairam sobre o SNS, é tempo de parar para reflectir antes que esta crise se torne irreversível e se percam ingloriamente conquistas que tanto custaram a concretizar.”

Se compararmos esta descrição com a feita acerca da actual escola pelos educadores / autores / actores envolvidos na peça de teatro «Professar», o essencial é semelhante:

“No plano da escola estão os horários, os currículos, as avaliações, os exames, as frequências, o aproveitamento, o oportunismo, os requisitos e a eficiência mas, no meio dessa enorme secretária, entalada entre essa alta pilha de papéis, será difícil fazer caber uma criança.”

Tanto a relação entre médico e doente, como a relação entre professor e aluno, como – plausivelmente - qualquer outra relação de interajuda entre seres humanos, tem vindo a ser sujeira a imposições burocráticas que se auto-justificam com a “produtividade” e com uma “suposta eficácia”. Talvez seja isso que o escritor Gonçalo Tavares sentiu quando fez o seguinte desabafo:

“Hoje a coragem tem, primeiro, de tirar um curso de especialização técnica. Se não o fizer será coragem, sim, sempre, mas inconsequente. Diante de um conjunto de pessoas fechadas num elevador parado por avaria, o homem mais corajoso do mundo irá telefonar à assistência técnica - eis o sem-saída em que nos colocámos.”

Fonte: artigos de opinião de Tavares (2013) e de Veloso (2020); livro de Soares e Duarte (2020; pp. 44)

Imagem: selecção de parte da usada na mensagem «0208»

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

[0211] Mapas planos, globos terrestres e geopolítica no século XVI

Os Embaixadores, um óleo sobre tela de Hans Holbein, o jovem, actualmente na National Gallery, em Londres, mostra dois diplomatas franceses enquadrando um conjunto notável de instrumentos científicos do início do século XVI (um Globos Celeste, um Globo Terrestre, um Quadrante, dois Relógios de Sol, um Torquetum, …):


Datada de 1533, esta obra inspirou a Patricia Fara, historiadora da Ciência, o seguinte comentário: “A pintura de Holbein ilustra como a ciência experimental proveio do comércio e da política, mais do que da sua sede de conhecimento desinteressado.”

O Globo Terrestre, discretamente pintado junto ao instrumento musical, terá lembrado a Hans Holbein, e também aos diplomatas que retratou, algumas das histórias geopoliticamente mais animadas das décadas anteriores. Ampliando-o e endireitando-o, de modo a percebermos o que nele está desenhado e escrito, eis o que este globo mostra:


Uma Europa, colorida, rodeada por continentes pouco ou nada conhecidos; e um sistema de meridianos e de paralelos onde sobressai um meridiano misterioso, traçado a vermelho, que divide de Norte a Sul o Oceânico Atlântico.
Foi em torno deste meridiano que a geopolítica das décadas anteriores se animara: ele visava traçar uma fronteira entre as duas pretensões imperiais que se estavam a afirmar na Península Ibérica e fora estabelecido pelo Tratado das Tordesilhas, em 1494.
Os reis de Portugal, que até aí apenas haviam explorado a costa africana, queriam continuar a fazê-lo a Leste deste meridiano; e os reis de Castela e Leão, que em 1492 tinham visto Colombo regressar da sua primeira viagem às Caraíbas, queriam ter um papel a Oeste daquela linha. Pelo que os mapas produzidos depois daquele tratado passaram a assinalar esta fronteira.

Se este foi o primeiro grande acto de arrogância imperial europeia, foi também uma declaração de guerra comercial no interior da própria Europa. Veneza, que até aos finais deste século havia sido a Porta do Oriente, ia começar a perder esse estatuto. Especiarias como a pimenta, a noz-moscada, a canela, o cravo-da-índia, o gengibre e a cânfora, colhidas no Sudeste Asiático e vendidas a comerciantes indianos e depois a comerciantes muçulmanos, chegavam, via Mar Vermelho, ao Cairo e a Alexandria, no Norte de África. A partir daí os comerciantes venezianos faziam-nas chegar a toda a Europa, embora, devido ao longo caminho percorrido, pouco frescas e muito caras.
A estratégia dos reis portugueses após o Tratado das Tordesilhas visou ir buscar estas especiarias às origens, tendo a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498, sido o primeiro passo. Um comerciante veneziano lamentou-o assim, em 1502: “todas as pessoas do outro lado das montanhas que antigamente vinham a Veneza comprar especiarias com o seu dinheiro irão agora para Lisboa porque fica mais perto dos seus países e mais fácil de alcançar; também porque poderão comprar a um preço mais barato”.

Esta mudança nas vias marítimas do comércio das especiarias gerou dois tipos de reacção.
Para uns, tratou-se de criar condições para também as navegar. Isso exigia novos conhecimentos náuticos e cartográficos e, caso os obtivessem (a espionagem em Lisboa foi dando alguns resultados), exigia capacidade para enfrentar militarmente o monopólio comercial que o Tratado das Tordesilhas havia dado aos reis portugueses na metade oriental do globo.
Para outros, tratou-se de verificar quais seriam os limites da metade do globo. Nos mapas planos, o traçado de uma linha de Norte a Sul, atravessando o Atlântico, nada dizia sobre por onde passaria, nos antípodas, a outra metade deste meridiano. Foi essa a intuição de Fernão de Magalhães. E foi também por isso que os mapas planos começaram a dar lugar aos globos terrestres, pois estes permitiam que se pensasse melhor no mundo tal como ele aproximadamente era: uma esfera.

Os testemunhos da época mostram que Fernão de Magalhães pretendia, com a sua célebre viagem, navegar através da metade ocidental do globo até ao Sudeste Asiático, local de origem das especiarias, voltando pelo mesmo caminho. Se provasse que as ilhas que procurava se encontravam nesta metade do globo, os reis de Castela e Leão poderiam reclamar o monopólio do comércio das especiarias. Como se sabe, Fernão de Magalhães foi morto numa dessas ilhas, tendo os sobreviventes da viagem decidido regressar a Sevilha (de onde haviam partido) por duas diferentes viagens: um dos dois navios que sobravam voltou para trás (sendo os seus tripulantes sido aprisionados quando atravessavam a metade oriental do globo); e o outro navio prosseguiu até completar a primeira circum-navegação (1519-1522), tendo evitado ser aprisionado ao atravessar a metade portuguesa.

Os dois impérios ibéricos, arrogantemente convictos dos seus direitos a monopolizar o comércio mundial, não se entenderam acerca da metade do mundo em que se situava a origem das especiarias. Para o tentar resolver, decidiram encontrar-se em Badajoz e em Elvas, tendo as negociações sido iniciadas em Abril de 1524, cada uma das partes levando os seus navegadores e os seus cartógrafos, os seus mapas planos e os seus globos terrestres. Em Julho, após permanentes desentendimentos, deram as negociações por terminadas, sem que houvesse uma conclusão.

Não admira pois que, em 1533, um discreto globo terrestre figurasse entre dois diplomatas franceses que se encontravam em serviço nas Ilhas Britânicas.

Fontes: livro de Fara (2013; p. 107) e livro de Brotton (2019; pp. 225-248)

Imagens: sítios da Wikiart e da Wikipédia

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

[0210] Esta escola tem de mudar


A peça de teatro «Professar», a que a mensagem «0208» se refere, foi estreada no passado dia 23 de Janeiro e resultou de um projecto que envolveu treze profissionais ligados à educação e à pedagogia e que lhes foi proposto por Lígia Soares e Sara Duarte.
O seu texto expressa a partilha de experiências e a reflexão, em contexto de criação artística, deste grupo de profissionais, sendo possível solicitá-lo através de www.teatromeiavolta.com.

Capa

Os seguintes excertos desta peça revelam o que raramente se pode ler e ouvir sobre a escola, dado o controlo exercido por uns poucos sobre o que se pode publicar e dizer acerca dela:

DANIELA

“É preciso resgatar a criança para o plano principal da escola, porque a criança saiu do plano principal da escola. No plano da escola estão os horários, os currículos, as avaliações, os exames, as frequências, o aproveitamento, o oportunismo, os requisitos e a eficiência mas, no meio dessa enorme secretária, entalada entre essa alta pilha de papéis, será difícil fazer caber uma criança.”

“[…] Porque é que temos de saber a história da outra pessoa para a tratarmos bem? Nós não precisamos de saber a história da outra pessoa para a tratarmos bem. As pessoas deviam tratar-se bem e pronto. É isso que a escola devia ensinar.”

ANA TERESA

“Eu acho que a escola não se devia chamar escola. Eu acho que a escola não se devia chamar escola mas sim lugar de encontro. Espaço de estar. Devia ser apenas isso. Um espaço para estar. Para ir ao encontro dos interesses das crianças, das famílias, onde se pudesse juntar todos em prol das crianças. Deixá-las. Deixar deixar deixá-las. Deixá-las ser. Deixar de as tornar. Deixar de tornar as crianças um número. Deixar de ser um depósito de crianças.

Gostava que a escola que não se chama escola fosse um lugar de aprendizagens múltiplas. Que fosse um lugar onde também se pode não aprender. Onde também se pode ser apenas criança. Como se a criança não fosse um erro, um ser humano em falta, em déficit, um bruto em formação. Como se a criança fosse um lugar de troca e não um espaço vazio que é preciso preencher. E onde as necessidades das crianças fossem mesmo aquilo que conduz o plano.

Uma oficina aberta com diferentes lugares, com diferentes zonas de aprendizagem.

Um espaço onde se entrelaçasse a arte, a ciência, e todas as áreas do conhecimento, às áreas do desporto, e onde as crianças se movessem à volta desses interesses. Onde houvesse um grupo, um verdadeiro grupo de pessoas que queiram pensar e que preparem o plano. Para as crianças e para os jovens. Um espaço onde a vida e o quotidiano e as famílias se juntam. Não gosto da escola como ela é.

Não gosto que as crianças estejam sempre sentadas. Não gosto dos currículos. Não gosto que tudo seja igual para todas as crianças. Que são todas diferentes.

A escola devia ser um espaço aberto, cheio de saídas. Sair muito. Visitar museus, ir ao teatro, ir ao cinema. Conhecer os artistas, conhecer os cientistas, Pôr a mão na massa. Estar com a realidade. A escola devia aproximar as pessoas da realidade. Ser realidade.

Eu não gosto da palavra escola. Eu não gosto da palavra estudante, na realidade, isto tem tudo de mudar.”

Fonte: livro de Soares e Duarte (2020; pp. 44, 46 e 62-63)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

[0209] Para que são feitos e como são feitos os mapas?


Cláudio Ptolomeu viveu em Alexandria, no Norte de África, entre 90 e 168 d. C.. As suas principais obras foram o Almagesto (o guia da Astronomia ocidental durante mais de 1 500 anos) e a Geografia (o primeiro fundamento científico para esta disciplina).

No tempo em que Cláudio Ptolomeu viveu Alexandria fazia parte há mais de um século do Império Romano (fora conquistada por Augusto em 30 a. C.), pelo que às tradições gregas dos seus fundadores se juntavam os interesses imperiais da administração romana. Não é pois de admirar que Ptolomeu tenha elaborado, como peça central da sua «Geografia», um mapa do mundo então conhecido: “os mapas do mundo conferiam uma autoridade arcana e mágica aos seus criadores e proprietários”; se os “xamãs”, os “sábios”, os “governantes” e os “líderes religiosos” compreendiam através deles “os segredos da criação e a extensão da humanidade, deviam certamente saber como dominar o mundo terrestre em toda a sua terrível e imprevisível diversidade.”

Outros impérios proporcionaram a outros criadores de mapas um papel semelhante ao de Ptolomeu. Na China, Pei Xiu, que viveu entre 223 e 271 d. C., foi nomeado Ministro das Obras Públicas pelo primeiro imperador da dinastia Jin (265 a 420 d. C.). Ele é muitas vezes referido como o Ptolomeu chinês, sobretudo porque definiu, no seu Yu gong diyu tu (Mapas Regionais do Yu Gong) aquilo a que chamou os seis princípios da cartografia: “O primeiro era o fenlü, as «divisões graduadas que são o meio de determinar a escala». O segundo era o zhunwang, uma «grelha retangular (de linhas paralelas em duas dimensões)». O terceiro era o daoli, ou «medir com passos os lados de triângulos retos, que é o modo de determinar o comprimento de distâncias derivadas». O quarto era o gaioxia, ou medir «o alto e baixo», e o sexto princípio era o yuzhi, ou medir «curvas e linhas retas».”

Como será interessante colocar um mapa moderno diante de alunos de Geografia e perguntar-lhes onde encontram nele materializados estes princípios (a escala, o quadriculado, as distâncias, as altitudes) …


… perguntando-lhes também como imaginam terem sido calculadas as distâncias primárias e as «derivadas» (em linha recta ou em curva): como terão aquelas contagens dos «passos» necessários para percorrer «os lados de triângulos retos» estado associadas ao nascimento daquilo a que hoje chamamos Teorema de Pitágoras?

Fonte: informações e citações do livro de Brotton (2019; pp.23, 65 e 162-163)

Mapa: Google Maps

domingo, 19 de janeiro de 2020

[0208] Vá ao teatro: existe um descontentamento generalizado com a escola!


A reportagem é da jornalista Clara Viana.
A peça de teatro tem como autores e actores aqueles que sabem do que falam. E por isso obriga-nos a questionar radicalmente o que se escreve habitualmente sobre o «estado da educação».

“Muito bom dia a todos. Antes de começar, vamos só relembrar que o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória não se constitui como qualquer tentativa de uniformizar com referência a um perfil estável e unilateral, mas sim amplo e abrangente, redondo e multifacetado e, ainda assim, claro e objectivo. Assim, não se trata de definir um mínimo, nem um ideal, mas sim o que se pode considerar desejável, com a necessária flexibilidade para não considerar o desejo dominante em relação ao desejo submisso de modo estanque, mas sim de forma dinâmica e mobilizadora (…).”

Confuso? É apenas uma professora a instruir a sua turma sobre o novo Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, que se tornou o novo documento orientador das aprendizagens que a escola deve propiciar.
Em cima do palco estão nove pessoas, com idades entre os 23 e os 64 anos. Seis delas são professores do ensino básico e secundário (cinco mulheres e um homem, quatro do ensino público, dois do privado). As outras três também estão ligadas à educação: uma professora do ensino superior, uma investigadora, uma educadora artística. Na peça são, à vez, professores e alunos.
Tudo o que se passa ali foi também escrito por eles para dar corpo a uma peça de teatro com o nome Professar, que estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, de 23 a 26 de Janeiro.
No palco a professora do Perfil do Aluno, que no caso é a investigadora Inês Peceguina, continua a debitar conceito atrás de conceito, mesmo quando todos os outros, que estão no papel de alunos, já não a ouvem.


Foi esta a abertura escolhida pelas encenadoras Lígia Soares e Sara Duarte, que acompanharam todo o «laboratório» em que a peça foi ganhando forma e «coseram» o que saiu de seis meses de escrita e troca de experiências. “Ao mesmo tempo está cheio, mas cria uma sensação de vazio”, comenta Lígia Soares a propósito do documento aprovado em 2018. Isto já depois de o ensaio ter terminado e de todos se prontificarem a falar com o PÚBLICO.
“Quis-se meter lá tudo com medo de poder faltar alguma coisa. Chega a ser obsessivo”, descreve Ana Cotrim, a professora que é a mais velha da equipa. Luísa Carvalho, a docente do ensino superior, que é a mais optimista do grupo, discorda: “É um potenciador de reflexão, que não tem prisões, nem amarra ninguém.”

“Pouco barulho! Silêncio! Teremos de vos pedir para saírem da sala e voltarem a entrar? Estão sentados nos lugares certos? (…) Endireitem-se lá nas cadeiras. Desliguem lá os telemóveis e voltem-se lá para a frente. Façam lá o que vos dizemos para fazer (…).”

A docente Ângela Veiga está a chegar ao fim da sua aula. De repente é como se tivesse perdido o norte e já não soubesse sequer dizer aos seus alunos se o seu comportamento foi bom ou mau. “Bem ou mal?”, vai repetindo, quando, à semelhança do que acontecera no início, todos os outros já seguiram o seu caminho. Serão os professores marionetas nas suas salas de aula? “Não tenho liberdade para agir de acordo com a minha forma de pensar. Sinto-me manipulada”, corrobora Ângela.
Ana Cotrim realça que tudo depende da escola onde se está, diz que a sua experiência docente foi marcada pela liberdade, mas diz também isto: “Talvez possamos mudar alguma coisa, mas no geral o que se sobrepõe é uma sensação de desconforto, limitação, insuficiência, que penso que seja comum também a muitos outros ambientes de trabalho.”
Pedro Branco evoca experiências de resistência: “Conheço professores que se levantaram e disseram não. Na minha sala de aula não.” “Não somos nada marionetas. A escola é mais do que isto, há qualidade no processo ensino-aprendizagem”, contrapõe Luísa Ramos.
Sofia Rosa, que é directora de uma escola, recua ao tempo do «laboratório de escrita». “Há muitos aspectos positivos na escola, mas quando viemos falar sobre educação não foi isso que trouxemos. Transportámos o que sentimos na nossa realidade.” “Foi o ponto comum a que chegámos”, reforça a educadora artística Ana Teresa Magalhães. E que tem marcas como estas: “Angústia, cepticismo.”
São dois termos quase consensuais a que tinham chegado antes. Depois de ver a peça, o PÚBLICO lança mais um para cima da mesa: depressão. Há um momento de hesitação e depois de concordância, embora não da parte de todos. Ana Fonseca, professora, é peremptória: “Não sinto nada disso. Nas primeiras sessões sentimos a necessidade de deitar cá para fora tudo o que nos ia mal na alma. Mas neste momento já não é disso de que se trata, já faço o que acho correcto.”
A encenadora Sara Duarte vai pensando em voz alta. “A depressão faz-nos pensar, é contrária à fuga para a frente. Sentimos a falta dos valores em que acreditamos, mas isso não quer dizer que fiquemos num buraco.” “A depressão colectiva é diferente da depressão individual”, atira Pedro Branco.

“Estão a passar para a escola papéis que não deveriam ser só da escola: nós estamos a ficar com a responsabilidade da assistente social, psicólogo, quase fazemos consultas, prestamos atendimento … O princípio da loja do cidadão! No fim já não distingues nada, se estás na fila da EDP, do Registo ou da Segurança Social / Ficamos perdidos / A escola está cheia daquilo que não tem de estar e vazia do que lá devia estar.”

Lígia Duarte acautela: “A nossa intenção não foi fazer um diagnóstico, mas dar campo ao lado humano, que está aqui representado.” “Somos o hospital da sociedade”, resume Ana Fonseca. “Um beco sem saída”, lamenta Ana Cotrim. Do palco, já a caminho do fim, vem mais uma bofetada pela voz de outra professora:

“Não é preciso termos mais medo, estamos a matar a infância.”

A escola mata mesmo a infância? “É o que sentimos”, responde Sofia Rosa. “É quase esquizofrénico. Sabemos o que não devemos fazer, mas depois fazemos”, desabafa Ana Cotrim, para reconhecer ainda que existe “um descontentamento generalizado com a escola”.
Existirá maior desconforto do que este? Uma nota pela positiva: “Também nós somos muitas pessoas na mesma pessoa – professores, pais, tios. E sabemos que a escola tem efectivamente de mudar. Se esta peça proporcionar reflexão e debate, a aposta foi ganha”, conclui Sofia Rosa.

Fonte: reportagem de Viana (2020) no jornal «Público»

Fotografia no jornal «Público»: Nuno Ferreira Santos

Arranjo gráfico do texto: Pedro Esteves

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

[0207] O Império Mogol e os azulejos mogol


Imaginemos uma parede forrada de azulejos, todos com o mesmo padrão geométrico. E imaginemos que a impressão visual que ela nos dá é a que os seguintes 9 azulejos nos dão:


Que há de invulgar neste padrão de azulejos?!

Sim, é isso: o que há de invulgar é a forma do próprio azulejo, um hexágono regular – não é uma forma usual no mundo ocidental!

De onde veio então a ideia de sugerir que imaginemos uma tal parede?
Compreensivelmente, surgiu do Museu Nacional do Azulejo (MNA), em Lisboa, onde estão visíveis para os visitantes alguns azulejos chamados «mogol», como este:


Trata-se de um azulejo proveniente do Mosteiro de Santa Mónica, em Goa, datado do século XVII, e que tem a particularidade de não ter a forma de um quadrado, mas sim de um hexágono, tal como os outros azulejos mogóis que o MNA nos mostra.

Enquanto no mundo ocidental os azulejos foram rapidamente reduzidos ao suporte quadrado, noutras paragens deste mundo em que vivemos a arte continuou a recorrer a uma maior variedade de formas. No caso deste azulejo tratou-se da chamada arte mogol.

A arte mogol é a arte que o Império Mogol (ou Mugal, ou Mogul) nos proporcionou.
Este Império durou de 1526 a 1857 (teve um interregno entre 1540 e 1555), correspondendo a máxima dimensão do seu território (atingida por volta de 1700) à quase totalidade do sub-continente indiano, ou, em termos actuais, à maior parte da Índia, do Paquistão, do Afeganistão e do Bangladesh:


O fundador do Império Mogol, Babur, era descendente de Gengis Khan (um mongol), sendo possível que tenha sido por esta razão que os portugueses designaram por Grão-Mogol cada um dos imperadores com que contactaram neste Império.
No seu auge, com uma população superior a 100 milhões de habitantes, o Império Mogol poderá ter sido o mais rico, o mais sofisticado e o mais poderoso do planeta. No entanto, entrou em rápido declínio a partir de 1725, por razões internas, não tendo sido por isso capaz de resistir à pressão do colonialismo britânico.

O padrão geométrico que imaginámos inicialmente tem uma consequência muito interessante para quem o queira analisar sob o ponto de vista matemático: pelo facto de a forma destes azulejos ser hexagonal, é possível formar nas paredes por eles cobertas alguns dos padrões que os azulejos cuja forma é quadrada não podem formar.
Recorrendo ao fluxograma da mensagem «0123», a classificação deste padrão como papel de parede precisa de responder às seguintes questões:

Pergunta: tem pelo menos uma família de centros de rotação?
Resposta: sim.
Comentário: de facto, tem várias famílias de centros de rotação.
Pergunta seguinte: a amplitude mínima dessa rotação é de 180º, ou inferior?
Resposta: sim.
Comentário: a amplitude mínima é de 60º.
Terceira pergunta: a amplitude mínima dessa rotação é de 90º, ou diferente?
Resposta: é diferente.
Quarta pergunta: a amplitude mínima dessa rotação é de 120º ou de 60º?
Resposta: 60º.
Quinta pergunta: tem pelo menos uma família de simetrias axiais?
Resposta: tem
Comentário: tem muitas famílias de simetrias axiais!
Conclusão: este padrão é do tipo p6m.

Com apenas um exemplo de centro de rotação e de eixo de simetria, eis então o painel de azulejos que imaginámos:


Fonte: sobre o Império Mogol (texto e mapa), Wikipédia

Fotografia: Eva Maria Blum

Desenhos: Pedro Esteves

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

[0206] Os «factos», a «construção de factos» e a necessidade dos «argumentos»


Pretendendo questionar aquilo a que habitualmente chamamos factos, recorro a três histórias bastante conhecidas; mas adapto-as um pouco, para tornar mais evidente o que quero interrogar.

A primeira história é a da mesa em cima da qual está um copo.
A dada altura uma das pessoas sentada à volta da mesa olha para o copo e diz: «O copo está meio cheio». E logo uma outra diz que «Não, o copo está meio vazio». As restantes pessoas nem se apercebem desta troca de palavras; talvez até nem tenham ainda prestado atenção ao copo: pensam e falam sobre outras coisas.
Há, em torno da mesa desta história, diversos factos. Mas cada pessoa observa uns e não liga a outros. E até aqueles que observam o mesmo facto tinha acerca dele um sensibilidade distinta, enunciando-o como factos diferentes.

A segunda história é a do grupo de cegos que passeia.
Apesar de caminharem com muito cuidado, esbarram em algo que desconhecem. Cada cego procura perceber de que se trata, tocando-lhe cuidadosamente. Um dos que está no centro do grupo afirma que embateram numa árvore, outro acha que foi num muro e o terceiro diz que lhe parece ter sido num enorme leque. Os que estão nos extremos do grupo chegaram a outras conclusões: terão tropeçado numa cobra, chocado numa vedação, batido num grande ramo.
Quando estavam prestes a desistir de se entenderem, ouvem um bramido inquietante: tinham afinal esbarrado num único obstáculo: um elefante.


Esta história também inclui diversos factos, mas todos os participantes nela têm um interesse convergente; de início, as informações parciais que recolheram fá-los formular factos diversos e imprecisos acerca daquilo que lhes tinha sucedido. Ao receberem uma última informação, igual para todos, o seu interesse comum permitiu-lhes formular um facto partilharam por todos.

A derradeira história é o do frango para o jantar.
São dois, os comensais, que só vão deixar os ossos do frango. No fim do jantar chega a Estatística, que diz: «Cada um de vocês comeu, em média, meio frango!»
A versão provocante desta história garante que o frango foi todo comido por um dos comensais, nada tendo o outro comido. Para ela, a moral é: não basta falar na média, pode-se acrescentar, por exemplo, qual o valor máximo comido pelos comensais (neste caso é igual 1) e qual o valor mínimo (neste caso é igual a 0). Assim, concluí esta versão, tudo fica esclarecido … estatisticamente.
Mas há muitas outras coisas que nós não sabemos: por exemplo, quem nada comeu, ou foi impedido de o fazer, ou estava ali só pela companhia porque já tinha jantado, ou … etc.. Portanto, muitas vezes os instrumentos estatísticos são insuficientes para descrever uma história. Se estivermos interessados em saber o que está para além das aparências estatísticas temos de nos mexer, interrogando quem nos pode dar outras informações. E mesmo depois de obtermos novas informações, só disporemos de uma visão parcelar do que aconteceu, isto é, do facto.

Há quem chame a este esforço para conhecer os factos, sem nunca os conseguir conhecer por completo, nem inequivocamente, construção de factos. Assim acontece na Ciência, por exemplo, onde o que nós sabemos sobre o Átomo mais não é do que aquilo que podemos imaginar (ao teorizar) a partir das indicações fornecidas pelos instrumentos de que os cientistas dispõem. E o mesmo acontece, ainda mais radicalmente, quando se trata de conhecer o que depende do factor tempo, como na Astronomia, na Geologia e na História: os factos passados desapareceram quase por completo, restando-nos apenas vestígios de uns poucos, sendo a partir deles que podemos construir hipóteses acerca do que já se passou.

A pretensão de prestar mais atenção àquilo a que chamamos, com demasiada ligeireza, factos, decorreu de um caso concreto: há quem se mostre grande satisfação por, na sua opinião, os tempos que correm serem os melhores de sempre para a humanidade, e citam, invariavelmente, as estatísticas que mostram como a luta contra a pobreza extrema tem feito progressos nas últimas décadas.
É este argumento que me choca. Quando as Nações Unidas propuseram aos governos e aos cidadãos de todo o mundo cumprir, entre 2015 e 2030, os chamados Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, o primeiro deles, Erradicar a pobreza, foi assim enunciado (mensagem «0154»):

·      “Até 2030, erradicar a pobreza extrema em todos os lugares, atualmente medida como pessoas que vivem com menos de 1,25 dólares por dia.
·      Até 2030, reduzir pelo menos para metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, que vivem na pobreza, em todas as suas dimensões, de acordo com as definições nacionais.
·      Implementar, a nível nacional, medidas e sistemas de proteção social adequados, para todos, incluindo escalões, e até 2030 atingir uma cobertura substancial dos mais pobres e vulneráveis.
·      Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os mais pobres e vulneráveis, tenham direitos iguais no acesso aos recursos económicos, bem como no acesso aos serviços básicos, à propriedade e controle sobre a terra e outras formas de propriedade, herança, recursos naturais, novas tecnologias e serviços financeiros, incluindo microfinanciamento.
·      Até 2030, aumentar a resiliência dos mais pobres e em situação de maior vulnerabilidade, e reduzir a exposição e a vulnerabilidade destes aos fenómenos extremos relacionados com o clima e outros choques e desastres económicos, sociais e ambientais.
·      Garantir uma mobilização significativa de recursos a partir de uma variedade de fontes, inclusivé por meio do reforço da cooperação para o desenvolvimento, para proporcionar meios adequados e previsíveis para que os países em desenvolvimento (em particular, os países menos desenvolvidos) possam implementar programas e políticas para acabar com a pobreza em todas as suas dimensões.
·      Criar enquadramentos políticos sólidos ao nível nacional, regional e internacional, com base em estratégias de desenvolvimento a favor dos mais pobres e que sejam sensíveis às questão da igualdade do género, para apoiar investimentos acelerados nas ações de erradicação da pobreza.”

Os argumentos implícitos neste enunciado focam não só a pobreza extrema, como a pobreza em geral e as suas diversas origens e áreas de possível solução. Se aquilo que este nosso mundo produziu anualmente foi multiplicado por 234 entre 1 800 e 2 000 (para um aumento populacional de apenas 6 vezes), se em 2009, para uma população mundial estimada em 6 680 milhões de pessoas, o que foi produzido per capita foi de 8 980 €uros, é admissível continuar a usar como argumento satisfatório que a pobreza extrema diminui quando ela já devia ter sido radicalmente erradicada?

Para que factos vamos nós olhar, já que estamos todos sentados à volta da mesma mesa?

Fontes: Wikipédia, sobre o Produto Mundial Bruto, e livro de Fonseca-Statter (2011; p. 9), sobre o PIB mundial per capita em 2009