quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

[0210] Esta escola tem de mudar


A peça de teatro «Professar», a que a mensagem «0208» se refere, foi estreada no passado dia 23 de Janeiro e resultou de um projecto que envolveu treze profissionais ligados à educação e à pedagogia e que lhes foi proposto por Lígia Soares e Sara Duarte.
O seu texto expressa a partilha de experiências e a reflexão, em contexto de criação artística, deste grupo de profissionais, sendo possível solicitá-lo através de www.teatromeiavolta.com.

Capa

Os seguintes excertos desta peça revelam o que raramente se pode ler e ouvir sobre a escola, dado o controlo exercido por uns poucos sobre o que se pode publicar e dizer acerca dela:

DANIELA

“É preciso resgatar a criança para o plano principal da escola, porque a criança saiu do plano principal da escola. No plano da escola estão os horários, os currículos, as avaliações, os exames, as frequências, o aproveitamento, o oportunismo, os requisitos e a eficiência mas, no meio dessa enorme secretária, entalada entre essa alta pilha de papéis, será difícil fazer caber uma criança.”

“[…] Porque é que temos de saber a história da outra pessoa para a tratarmos bem? Nós não precisamos de saber a história da outra pessoa para a tratarmos bem. As pessoas deviam tratar-se bem e pronto. É isso que a escola devia ensinar.”

ANA TERESA

“Eu acho que a escola não se devia chamar escola. Eu acho que a escola não se devia chamar escola mas sim lugar de encontro. Espaço de estar. Devia ser apenas isso. Um espaço para estar. Para ir ao encontro dos interesses das crianças, das famílias, onde se pudesse juntar todos em prol das crianças. Deixá-las. Deixar deixar deixá-las. Deixá-las ser. Deixar de as tornar. Deixar de tornar as crianças um número. Deixar de ser um depósito de crianças.

Gostava que a escola que não se chama escola fosse um lugar de aprendizagens múltiplas. Que fosse um lugar onde também se pode não aprender. Onde também se pode ser apenas criança. Como se a criança não fosse um erro, um ser humano em falta, em déficit, um bruto em formação. Como se a criança fosse um lugar de troca e não um espaço vazio que é preciso preencher. E onde as necessidades das crianças fossem mesmo aquilo que conduz o plano.

Uma oficina aberta com diferentes lugares, com diferentes zonas de aprendizagem.

Um espaço onde se entrelaçasse a arte, a ciência, e todas as áreas do conhecimento, às áreas do desporto, e onde as crianças se movessem à volta desses interesses. Onde houvesse um grupo, um verdadeiro grupo de pessoas que queiram pensar e que preparem o plano. Para as crianças e para os jovens. Um espaço onde a vida e o quotidiano e as famílias se juntam. Não gosto da escola como ela é.

Não gosto que as crianças estejam sempre sentadas. Não gosto dos currículos. Não gosto que tudo seja igual para todas as crianças. Que são todas diferentes.

A escola devia ser um espaço aberto, cheio de saídas. Sair muito. Visitar museus, ir ao teatro, ir ao cinema. Conhecer os artistas, conhecer os cientistas, Pôr a mão na massa. Estar com a realidade. A escola devia aproximar as pessoas da realidade. Ser realidade.

Eu não gosto da palavra escola. Eu não gosto da palavra estudante, na realidade, isto tem tudo de mudar.”

Fonte: livro de Soares e Duarte (2020; pp. 44, 46 e 62-63)

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