Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicar. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

[0341] Os blogues a que este bloguer está atento

A partir de hoje este blogue possui uma discreta ligação a três outros blogues (pode-se aceder a eles em Os blogues a que estou atento, a última das acções disponibilizadas ao leitor na coluna da direita.

Dois desses blogues estão em interacção directa com o trabalho de professores ainda no activo, sendo em parte animados por professoras actualmente «reformadas». Estas, ao se disponibilizarem para tal, não estão, de facto, «reformadas», continuando a ser professoras por novas vias.

O terceiro blogue tem o mesmo animador deste onde o bloguer está agora a escrever, e que, também por esta e outras vias, se recusa a ser mais «um reformado».

Eis pequenos apontamentos sobre estes três blogues:


Aproximações à utilização do Geogebra: blogue de uma comunidade de prática que desenvolve um projeto de utilização do GeoGebra em sala nos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico:


Sendo o GeoGebra é uma ferramenta informática que apoia o trabalho em Geometria, este blogue pretende apoiar um projecto que visa a 1) Responsabilização dos professores pelo seu desenvolvimento profissional com forte investimento em áreas de fragilidade do ponto de vista científico, neste caso a geometria; a 2) Valorização de um trabalho colaborativo de partilha e reflexão sobre o desenvolvimento curricular que cada professor realiza; e a 3) Assunção de que os professores aprendem Matemática através do ensino.


Numericar: blogue que se tem estruturado em torno do Número do Dia, uma atividade de aprendizagem intrinsecamente ligada à escrita da data (medida do tempo) e que, sendo uma rotina diária inicial, é acrescida de uma exigência do ponto de vista cognitivo, visando a promoção do raciocínio e a comunicação matemática, ou seja, trata-se de uma ação estratégica para uma aprendizagem que se vai consolidando ao longo do tempo.
Eis o topo da página onde esta explicação é dada:



Aprendizagens: blogue que se apoia nas memórias fortes que os tempos do bloguer como professor deixaram, para construir um testemunho que contribua para compreender as crescentes distâncias entre os caminhos que a educação tomou e os que seriam escolhidos se se pretendesse chegar aos futuros que o bloguer constantemente imaginou.
A
mensagem que actualmente tem em destaque dá uma ideia das «memórias fortes» que nele são referidas:



Fonte (texto e imagem): blogues referidos acima

segunda-feira, 31 de julho de 2023

[0323] Quatro recensões de livros sobre a escola e a educação, por Paulo Guinote

 


Estou habituado a ser acusado de ser pessimista, de só ver o lado menos positivo das coisas. De não ver os evidentes “conseguimentos”, nomeadamente na área da Educação, e de estar sempre pronto e com teclado ligeiro para apontar o que correu menos pior ou francamente mal. Há mesmo quem se vitimize com algumas críticas, por muito que eu as fundamente de forma factual, não me refugiando apenas no domínio da “opinião”.
Discordo interiormente, porque considero que o que a nossa Escola Pública conseguiu fazer nas últimas décadas do século XX foi excepcional em termos de recuperação de um atraso educacional estrutural do país, não negando que mais algumas coisas positivas aconteceram nos últimos vinte anos. Mas não me importo de, para o exterior, ficar essa imagem por uma razão que acho simples e lógica… quem vê o copo meio vazio tem mais urgência em encher o que falta do que quem o vê meio cheio e, de certa forma, descansa e encara com maior calma o que há ainda por fazer.
Por outro lado, o pessimista alegra-se com pouco, pois espera quase sempre o pior, mesmo se não pula de contentamento, de nenúfar em nenúfar, todos os dias, como se vivesse no melhor dos lagos floridos, onde nenhum perigo espreita.
Existem formas diferentes de olhar para a mesma realidade, até de interpretar indicadores aparentemente objectivos de modos diversos e mesmos conflituantes. Compreendo isso, assim como o domínio mais subjectivo das “intenções” com que as coisas são ditas, escritas ou mesmo legisladas, mas como nos diz a sabedoria popular de boas intenções está o mais quente dos infernos repleto. Claro que as intenções são sempre as melhores, mesmo quando não o são verdadeiramente, incluindo certas medidas apresentadas como de uma justiça social e superioridade moral sem contestação possível.
A este propósito gostava de fazer aqui uma espécie de apresentação crítica de um conjunto de livros que, nos últimos meses, foram publicados por gente que vive ou viveu por “dentro” o quotidiano escolar há mais ou menos tempo, mas em todos os casos com experiência de várias décadas. Em comum têm quase todos um tom de crónica dorida e a publicação na periferia dos grandes grupos editoriais com negócios avultados com o Ministério da Educação. Em comum revelam a necessidade de exorcizar dores acumuladas, não inventadas, não ficcionadas para atingir qualquer governante, e que conduziram a momentos de perplexidade, desânimo, mas também de reflexão e resistência.

Não é por acaso que um desses livros tem como título, Resistir – Crónicas de uma Tragédia Educativa (Artelogy, 2023), de Fernando Alva, pseudónimo de professor com 43 anos de idade e 21 de profissão, actualmente docente da Educação Especial. O mais jovem desta amostra, talvez seja o que tem o olhar mais duro sobre o que o cerca, mas ainda e sempre com vontade de resistir contra as ameaças e demagogias de quem muito fala em Educação Pública, mas apenas de forma instrumental. As suas palavras podiam ser as minhas, que sou já de uma outra geração.
“Apesar de todos os seus defeitos, a escola pública portuguesa continua a ser um dos raros faróis da sociedade, pelo qual vale a pena lutar. Grande parte do que somos, mas também do que não nos deixaram ser, é aquela que se lhe deve. Por isso, é por tanto amá-la que o autor destas palavras passou grande parte da vida a criticá-la, sonhando-a para além da sua mesquinha existência quotidiana.” (p. 9)

Não é por acaso que Victor Correia publicou um volume com o título Injustiças e Abusos no Ensino em Portugal (Mosaico, 2023). Com 60 anos, 30 de carreira, professor de Filosofia, o seu retrato, que se estende do Ensino Básico ao Superior, é igualmente dorido e amargurado. Na introdução pode ler-se que:
“Actualmente, a importância da Escola e do papel do professor diminuíram muito. Com o aumento da escolaridade obrigatória e a massificação do ensino, o professor tornou-se quase um mero funcionário para guardar alunos dentro de um edifício, em vez de ser um expoente de cultura e conhecimentos, que muitos preferem ir buscar à Internet (..) e muita gente confunde transmissão com ensino, confunde conhecimentos com mera informação, confunde cultura geral com sabedoria, confunde informação com formação” (p. 5)
E esta situação não melhora quando existe um claro divórcio entre quem assume o papel de decisor e quem está no terreno e Victor Correia aponta uma das razões para isso: a origem da generalidade de quem ocupa o cargo de ministr@ é o ensino universitário, tendo uma formação demasiado teórica e quase nunca formação pedagógica (p. 6).

Já Pedro Esteves, 77 anos, professor aposentado, escolheu como tema O conflito sobre as escolas – Hierarquização versus Participação. Testemunho de um Professor (Ulmeiro, 2023), revelando desde logo uma das fracturas expostas no sistema de ensino público, condicionado nas últimas duas décadas pela lógica de dominação hierárquica na gestão e escolar e pela imposição de uma obediência acrítica a formulações únicas e inquestionáveis que tomam a escola como uma empresa gerida à moda de um neoliberalismo que entrou em força na administração educativa.
Já fora do delírio quotidiano, Pedro Esteves consegue uma abordagem mais analítica da evolução da Educação Pública nas últimas décadas, das tendências que marcaram a passagem de uma lógica “horizontal”, democrática, efectivamente colaborativa, para um paradigma (termo muito usado na novilíngua a que Marçal Grilo chamou “eduquesa”) em que predomina o modelo “vertical”, autocrático e em que a colaboração se define pela anuência à implementação do que é imposto a partir do topo das “lideranças”, nacionais ou locais. Na síntese do debate sobre a apresentação da obra, o autor apresenta um depoimento com muitos pontos em comum com o de Fernando Alva, 34 anos mais novo:
“Trata-se de uma história de amor à escola, nos caminhos sinuosos da sua dignificação; mas também se trata de um percurso crítico e de resposta.
Proporciona uma visão de conjunto sobre as políticas educativas e sobre o que se passou nas escolas nos últimos 50 anos. Foca-se, sobretudo, a organização das escolas, pois esta decide a arte de ensinar dos professores. Permite compreender o «mal-estar» subjacente à actual luta dos professores (a qual só pode ser compreendida a partir dos seus testemunhos).”

No caso de José Calçada, também 77 anos, formado em História, professor com um longo trajecto como inspector pedagógico, o livro publicado (O Herói e doze coisas mais. Primeiro Capítulo, 2023) é mais diversificado nos temas e no registo usado, mas alguns capítulos devolvem-nos um quotidiano bem revelador do clima vivido na Educação nas primeiras décadas do século XXI. Inspector até 2009, descreve-nos como as políticas seguidas se definem e alteram de acordo com os humores e interesses particulares dos governantes. Do capítulo “O Desafio da qualidade Educativa”, extraio o excerto, de uma intervenção pública feita em 2016, sobre a forma como as coisas são feitas, nem interessando qual o governo ou o ministro específico, porque a pulsão para usar os organismos do Estado como aparelhos de imposição ideológica é transversal e marca a História dos últimos 20 anos da nossa Educação Pública.
“E a pergunta que agora se deve colocar é: porque é que, depois de percorrermos cerca de 800 escolas com a aplicação do Programa de Avaliação Integrada, este trabalho foi subitamente suspenso, de um momento para o outro. Bem, há muitas respostas para esta pergunta, e nenhuma delas é de natureza pedagógica, nenhuma delas em rigor tem a ver com as escolas ou a Inspecção – todas elas resultaram de uma opção política definida.” (p. 89)
José Calçada continua explicando que muitos dos “pontos fracos” que os relatórios apresentavam se deviam, em regra, a factores ou organismos exteriores às escolas, pelo que o governante em causa terá considerado que isso era uma espécie de rebelião contra a sua forma de encarar as coisas… “estou à espera que eles venham de lá e nos digam que os professores são culpados de tudo e mais alguma coisa, e os gajos vêm dizer que afinal não é assim?” (p. 90)

Será que estes docentes, com trajectos profissionais muito diversos, de diferentes gerações, estão todos errados, partilhando de uma qualquer conspiração global contra uma Educação Maravilhosa que recusam reconhecer? Acaso não se tratará do contrário, pois, por diversas razões, nada têm a ganhar com tal diagnóstico? Estarão todos equivocados, estando certos aqueles que, tendo nas suas mãos as redes do poder, se fecham a olhares divergentes e recusam a aceitação do pensamento crítico que anunciam promover nos alunos? Olhem que não, olhem que não…

 

Fonte: opinião de Guinote publicada no «Jornal de Letras» (2023)

sexta-feira, 7 de abril de 2023

[0311] De quem nos fala a «ficção científica»?

A ficção científica também tem sido designada – e talvez mais adequadamente - como ficção social e científica.

Entre os escritos precursores deste género literário encontram-se obras como «Utopia» (1516), de Thomas More, «Somnium» (1611), de Johannes Kepler, «Histoire comique des Estats et empires de la Lune
» (1657), de Cyrano de Bergerac, «Nova Atlantis» (1626), de Francis Bacon, «The Balloon-Hoax» (1844), de Edgar Allan Poe, e «Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde» (1886), de Robert Louis Stevenson.

Foi com o francês Jules Verne (1828-1905) e com o inglês H. G. Wells (1866-1946), portanto na transição para o século XX, que as características deste género literário se começaram a explicitar. Entre os seus autores mais interessantes, activos até perto do início deste século, figuram o checoslovaco Karel Čapek (1890 - 1938), os ingleses Aldous Huxley (1894 - 1963), George Orwell (1903 - 1950) e Arthur C. Clarke (1917 - 2008), os norte-americanos Robert A. Heinleine (1907 - 1988), Isaac Asimov (1920 - 1992), Ray Bradbury (1920 - 2012) e Kurt Vonnegut Jr. (1922 - 2007), o canadiano A. E. van Vogt (1912 - 2000) e o polaco Stanislaw Lem (1921 - 2006).

Para Isaac Asimov, um destes autores, o objectivo deste tipo de ficção não é imaginar o «futuro»: “O verdadeiro futuro será o que as circunstâncias, a vontade humana e a inteligência do homem quiserem fazer dele; e o que podemos desejar é que todas elas conspirem para que o resultado seja bom. O meu objectivo, como futurista, é reconhecer o terreno que temos pela frente, a fim de a humanidade, na sua viagem através do tempo, tenha uma noção mais exacta daquilo a que pode aspirar e daquilo que deve evitar.

Para Darko Suvin, um estudioso, o que é escrito por estes ficcionistas, são “parábolas”, tal como já estava bem explícito na «Guerra dos Mundos», que Wells publicou em 1898: logo no início, ao descrever a invasão da Terra pelos Marcianos, ele diz-nos que “os marcianos se comportaram em relação a nós, terrestres, como «nós», ingleses, nos comportámos relativamente aos povos coloniais”. Por isso, prossegue Suvin, os filmes como «A Guerra das Estrelas» são “nocivos”; são “uma mistura habilidosa” de filmes de guerra e de contos de fadas, são “sofrivelmente reaccionários, da nova direita americana, populista”, e o seu sucesso levou muitos romancistas americanos a “escrever com a esperança de ganhar dinheiro vendendo um das suas histórias a Hollywood, e isso implicou uma perda de qualidade média” do que eles escreveram.

Para Rod Serling, criador da série «Twilight Zone, existe uma diferença de grau entre a «fantasia» e a «ficção»: “Fantasia é o impossível tornado provável. Ficção científica é o improvável tornado possível.

O canal televisivo ARTE exibiu há tempos dois documentários particularmente interessantes relacionados com a ficção social e científica, que, infelizmente já não estão acessíveis (mas que os interessados podem procurar por outros meios).

Num deles comparam-se as obras 1984, de Georges Orwell, com The Brave New World, de Aldous Huxley, duas visões futuristas sobre o controlo social e que, hoje, talvez se possa dizer estarem a ser concretizadas complementarmente:


No outro faz-se uma análise do testamento literário daquele que talvez se possa considerar o mais prolífico escritor deste género literário: Isaac Asimov:


Fontes: livro de Asimov (1986; p. 10); prefácio de Lima da Costa a Antologia de Ficção Científica (de que não possuo o nome da editora nem a data de publicação); entrevista a Darko Suvin (1983); Wikipédia (em português), artigo «Ficção científica» (acedido em 21 de Outubro de 2022)

Documentários referidos: «George Orwell, Aldous Huxley: “1984” ou “Le Meilleur des Mondes”?»; «Isaac Asimov. L`étrange testament du père des robots»

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

[0300] Encerramento deste blogue?

 

Em Dezembro passado, por motivos da saúde, fui obrigado a interromper este blogue.

O mais provável é que esta experiência não seja retomada, sendo substituída (a reunirem-se de novo as condições necessárias), por dois blogues de memórias, um dizendo respeito à Escola Secundária José Afonso (Seixal) e outro ao Núcleo da Associação de Professores de Matemática em Almada e Seixal.

Um grande abraço!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

[0193] Uma mesa na cidade


O actor e dramaturgo Ivam Cabral explicou assim o modo como lhe surgiu a ideia de que é possível intervir nas cidades:

A minha relação com o espaço urbano veio da minha relação com Lisboa, onde vivia. Quando procurámos um espaço para trabalhar encontrámos o Teatro Ibérico, que ficava no sítio onde depois se construiu a Expo 98. Em 1993 era um lugar muito distante, muito escuro, onde não havia comércio nem luz à noite. O nosso trabalho era acender a luz que ficava à frente do teatro. Por causa disso, quem estava perto ou passava interessava-se por aquilo que estava a acontecer. Era como se ao acender aquelas luzes chamássemos as pessoas. A partir daí, o acender a luz de algum lugar passou a ser um gesto político.

Depois, explicou como usou essa ideia para intervir na Praça Roosevelt, um dos lugares mais perigosos de São Paulo, com muitos problemas com furto, alguns assassinatos, uma presença muito forte do tráfico:

Quando procurámos um lugar para nos instalarmos, queríamos mesmo um espaço escuro e problemático. Queríamos executar essa ideia que trazíamos de Lisboa de que a grande revolução é uma mesa na rua. Foi o que aconteceu. Colocámos uma mesa em frente ao nosso espaço e enquanto estávamos ali sentados nenhum problema acontecia naquele lugar. Quando tomamos a cidade para nós, afastamos a criminalidade. Porque ela acontece, em geral, no escuro. Quando jogamos uma luz sobre a cidade estamos a chamar as pessoas para a conversa. E nós começamos a chamar os traficantes, as pessoas que estavam por ali ...

Num primeiro momento tinham muito medo. Depois, quando percebiam que era um lugar seguro, um lugar iluminado, ficaram. Ao trazer cidadãos que estavam a traficar, em geral menores de idade, para dentro de portas começámos a dar-lhes um nome, um mote para a vida. Passavam a ser alguém. Muitos foram trabalhar connosco, na técnica, operando som e luz, na limpeza do espaço. Havia muitos travestis e prostitutas e chamamos vários para conversar e trabalhar. Alguns tornaram-se importantes na equipa.
Um deles foi o Emerson Fernandes. Tinha 17 anos. Um dia chamámo-lo para fazer um pequeno serviço no nosso teatro, criámos uma ponte. Ele acabou por sair das ruas e hoje é funcionário da Escola de Teatro, casado, pai de dois filhos. Transformou-se num dos técnicos mais importantes do teatro de São Paulo. A grande mudança deu-se através do encontro com o teatro. Hoje ele tem uma vida que os irmãos dele, que não encontraram a arte, não têm.

Esse trabalho começou a ser conhecido e um dia o presidente da câmara de São Paulo, José Serra, veio visitar Os Satyros, a nossa companhia de teatro. Pediu para pensarmos numa escola profissional e técnica de teatro. Surgiu dessa encomenda do poder público. O projecto pedagógico da escola construiu-se do encontro de vários artistas. Não tínhamos, no início, nenhum pedagogo. Mas tínhamos uma frase: «Em que escola gostaria de ter estudado?» Fomos respondendo a essas perguntas e criando um sistema pedagógico que quebra com o ensino formal. Trabalhamos com a experiência. Ensinamos aprendendo e aprendemos ensinando.



E explicou porque distingue, nestas intervenções, a «inclusão» da «acessibilidade»:

Eu sou filho de uma costureira e de um pedreiro analfabeto que tiveram seis filhos. Éramos muito pobres, vivíamos no interior do país. Mas tudo o que o Ivam não precisava enquanto criança e adolescente era ser incluído. Precisava de acesso a bons livros, a boas escolas, a cultura. Há uma diferença muito grande entre inclusão e acessibilidade. A inclusão contrapõe-se à exclusão. E isso é terrível. Quando se inclui alguém, em geral, apenas se inclui. A acessibilidade dá acesso ao ir e vir.
A acessibilidade está numa linha horizontal. Eu dou a possibilidade de alguém conhecer a minha cultura e o que penso, mas quero também conhecer o que ele pensa. Um português que emigrou para Paris nos anos 1970 teve de ser incluído, porque o parisiense não queria saber da cultura dele. Não havia troca. Raramente assimilamos a cultura de alguém que tentamos incluir.

Fonte: Cabral, entrevistado por Pinto (2019)