Este é um blogue de um professor e cidadão.
Como professor, não posso separar a Matemática (a principal disciplina que me
coube ensinar) da Educação, pois esta constitui a matriz de qualquer processo
de ensino-aprendizagem)
Como cidadão, devo prestar toda a atenção às Comunidades em que estou inserido,
ou com que estou em contacto, e perspectivá-la de acordo com uma visão do Mundo
como um todo.
Tal como qualquer outro professor e cidadão, estabeleço uma relação minimamente
fluída entre as minhas «práticas» e as minhas «teorias»: trata-se de uma
diferença essencial em relação a quem está subordinado a uma hierarquia.
Na mensagem «0116» (publicada em 11 de Abril de 2018) procurei pela primeira
vez fazer uma síntese daquilo a que, na apresentação deste blogue, chamei
Currículos Abertos.
Se o «currículo» é a peça central da organização dos processos «formais» de
ensino e aprendizagem, ao desejá-lo «aberto» pretendi que ele também integrasse
os processos «informais» e os «não formais», favorecendo para isso um outro modo
de o definir: não hierárquico e mais interactivo.
Retomo a seguir essa síntese, procedendo-lhe a alterações e a alguns
comentários: eles reflectem o que a minha aprendizagem ao longo dos últimos
oito anos me sugere que faça.
O que publicar hoje passará a figurar na página «Currículo» deste blogue, até
que sinta a necessidade de a voltar a rever.
Os
currículos abertos começam a ser estabelecidos fora da escola
A escola ignora o que as crianças já
sabem quando nela entram:
Disse João dos Santos (psicólogo
educacional; 1913-1987): “o drama é que não há continuidade entre o que se aprende
livremente antes de se entrar para a escola e aquilo que se aprende na escola”;
antes de se entrar para a escola “aprende-se a
viver e a conviver e num plano de relação verbal”, enquanto “o que se ensina na escola, é apenas a linguagem escrita,
só tem que ver com a linguagem escrita, que é vista pela escola como se tudo o
resto não tivesse importância nenhuma, como se o falar, o dialogar, o brincar
não tivesse importância nenhuma”.
“É que o importante na escola, para começar,
é que o adulto se aperceba de que a criança já sabe imensas coisas. E a maior
parte das vezes a escola e os professores ignoram que a criança já tem um
saber, e que é um saber extraordinariamente importante, e partem do princípio
de que o que elas sabem não tem nenhum valor, o que é perfeitamente errado e
prejudicial.” No fim de contas, a escola pretende que “o que não é mensurável, quer dizer, o que vai até ao
infinito, ao céu e às estrelas”, seja reduzido “a
uma escala do mensurável”, pelo que “a
criança que ainda está numa fase de instabilidade, que anda a percorrer o seu
universo e a alargá-lo para o compreender”, vê-se reduzida “às dimensões de uma mesa, de um papel”. É por isso
que “todas as dificuldades escolares têm que ver
com um estado de tristeza da criança.” [mensagem «0112»]
A conversa de que resultou este excerto aconteceu há décadas: terá a
escola entretanto melhorado a sua permeabilidade aos conhecimentos com que as crianças
a elas chegam?
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As aprendizagens no quotidiano resultam de iniciativas
individuais e de grupo:
Um vídeo intitulado «Aprender, Viver e Trabalhar na Península de Setúbal»,
encomendado pelo Instituto das Comunidades Educativas e concluído em 1997, foi
organizado em 4 partes: «Tocar, cantar, conviver, representar»; «Ler, escrever,
falar, divulgar»; «Reunir, conservar, instruir, fazer»; e «Herdar, trocar,
descobrir». Em cada uma destas partes ilustram-se aprendizagens no quotidiano.
Escreveu Ângela Luzia sobre ele: “Juntam-se
diferentes gerações, contextos e interesses, mas procura-se destacar o que é
transversal: todos os testemunhos refletem a importância da experiência
coletiva, do processo de aprender para fazer, experimentar e criar com outros,
ganhar confiança, partilhar saberes, procurar saber mais, alargar e
diversificar experiências, do tornarmo-nos diferentes. Já então se reconhece a
importância da escola, do que pode ser, mas também as suas limitações.” [testemunho «110» do blogue «Aprendizagens»; e
texto de Luzia (2026)]
Em 2015, o Museu Nacional de Arte Antiga, pretendendo divulgar a exposição
«Coming Out – e se o museu saísse à rua?», afixou réplicas
de trinta e um dos seus quadros na Baixa de Lisboa.
Ao fim de dois meses tinham desaparecido catorze
dessas réplicas. Mas quatro, o «Retrato do Conde de Farrobo», o «São Damião», o
«Retrato do Senhor de Noirmont» e «Conversação», continuavam acessíveis à
contemplação de qualquer um - mas do outro lado do rio, na Outra Banda:
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| O «Conde de Farrobo», na Outra
Banda |
Segundo o jornal «Observador»,
os autores desta mudança foram dois jovens (que não se quiseram identificar),
tendo um deles esclarecido: “Não é roubo, é
um deslocamento.” Desde o início os dois
pretendiam colocar estas réplicas perto das suas casas, num bairro entre o
Laranjeiro (Almada) e Miratejo (Seixal): “Gostámos
muito da atividade do museu e achámos que devia ser alargado a outros sítios”.
Quem também parece ter gostado
foram os moradores do bairro situado junto da Avenida Professor Rui Luís Gomes.
“Ninguém tentou levar nem vandalizar, está
intacto. Há pessoas que disseram que era o quadro mais bonito que já tinham
visto”, conta um dos promotores da mudança.
Ali, a pintura “ganha outra magnitude”; e seria bom que estes quatro quadros “levassem gente de fora ao bairro” para os ver, tal como acontece aos quadros que ainda
estão no Chiado [mensagem «0087»].
Se se compreende a recusa de fazer equivaler «ensinar» a «transmitir», e se é
tentador que a alternatica seja fazer equivaler o «aprender» a «construir», não
será também de destacar que essa construção começa com uma «apropriação»?
Na escola, os currículos abertos resultam dos contributos de todos
As perguntas
e as respostas de cada um são o contributo decisivo para as suas aprendizagens:
Queixou-se Karl Popper (filósofo da ciência; 1902-1994): “(…) a nossa
pedagogia consiste em sobrecarregar as crianças com respostas, sem que elas
tenham colocado questões, e às perguntas que fazem não se presta atenção”. “Esta é a pedagogia habitual: respostas sem perguntas e perguntas sem
respostas.” [mensagem «0077»]
Penso que esta formulação é insuficiente: não se trata apenas de prestar
atenção às «perguntas» que os aprendentes fazem: trata-se também de prestar
atenção às suas «respostas». A relação entre quem ensina e quem aprende não será,
afinal, um diálogo em que todos colocam questões e arriscam respostas?
Os saberes dos diversos colectivos são os
principais apoios para qualquer aprendizagem:
Afirmou Jerome
Bruner (psicólogo educacional e
pedagogo; 1915-2016): “Há coisas que cada indivíduo sabe (mais do que ele próprio julga);
mais ainda conhece o grupo ou é passível de ser descoberto por meio da
discussão em grupo; e muito mais ainda se encontra armazenado algures – na
«cultura», isto é, nas cabeças das pessoas mais sabedoras, nos directórios, nos
livros, nos mapas, e por aí adiante.” [mensagem
«0006»]
E dois dos fundadores da Etnomatemática, Ubiratan
d`Ambrósio (1932) e Paulus Gerdes (1952-2014), mostraram como a ela é uma das vias
para revelar saberes culturais.
O primeiro evidenciou os conflitos existentes entre as aprendizagens
realizadas fora e dentro da escola: a “aptidão
numérica «erudita» elimina a assim chamada aptidão numérica «espontânea».
(...). Há uma crescente perda de utilidade para o modo tradicional de fazer
aritmética (...). Uma vez indo à escola, a tendência é perder essas
habilidades, e não ser capaz de substituí-las pela forma «erudita».”
[mensagem «0101»]
%20Capa%20de%20livro%20(Ubiratan%20d%60Ambr%C3%B3sio).jpg)
E o segundo definiu assim a Etnomatemática: “é o campo que estuda ideias matemáticas nos seus
contextos histórico-culturais”; “Cada povo –
cada cultura e sub cultura – desenvolve a sua própria matemática, de certa
maneira específica.” [mensagem «0010»]
A formulação de Ubiratan parece-me tímida, pois cabe a cada aprendente o
direito a fazer a sua síntese entre a sua experiência e aqilo que a escola e
outras instituições lhe proporcionam.
A diversidade dos saberes é favorecida pelos currículos abertos
Os «saberes»
são muito mais do que «conhecimento»:
Boaventura
de Sousa Santos (sociólogo) lembrou que a riqueza e a complexidade
do paradigma da modernidade se tem mostrado “tão susceptível de variações
profundas como de desenvolvimentos contraditórios”; e que ela assenta em dois
pilares, o da “regulação” (princípios do
Estado, do mercado e da comunidade) e o da “emancipação”
(racionalidades “estético-expressiva das artes e da literatura”,
“cognitivo-instrumental da ciência e da técnica” e “moral-prática da ética e do
direito”). “Desde o início que se previra a
possibilidade de virem a surgir excessos e défices, mas tanto uns como outros
foram concebidos de forma reconstrutiva [... o que …] foi progressivamente
confiada à ciência e, de forma subordinada, embora também determinante, ao
direito. Promovida pela rápida conversão da ciência em força produtiva, os
critérios científicos de eficiência e eficácia logo se tornaram hegemónicos, ao
ponto de colonizarem gradualmente os critérios racionais das outras lógicas
emancipatórias.” [mensagem «0057»]
A hegemonização do paradigma da modernidade pelas racionalidades
«cognitivo-instrumental» tem implicado o empobrecimento do seu pilar «emancipatório».
Mas essas dificuldades são agravadas pela tendência para a subordinação destas
racionalidades aos princípios regulatórios do «Estado» e do «mercado».
Os «saberes» poderão ser a expressão sincrética das persistentes tentativas de
estabelecer um novo equilíbrio entre a «emancipação» e a «regulação».
Nova fonte: PDF de Luzia (2026)
Imagens: capas de
livros de João dos Santos e de Ubiratan d`Ambrósio; e fotografia de André Costa
(parcialmente reproduzida)