sobre o Currículo



Aquilo de que precisamos, são estruturas que coloquem as pessoas em contacto umas com as outras e que permitam, desse modo, que cada um se defina ao aprender e ao contribuir para a aprendizagem dos outros. (Illich, 1984; pp. 121-122)


Porquê «Currículos Abertos»?

Esboços de resposta: [mensagens «0116», «0377», …]

Os currículos abertos começam a ser estabelecidos fora da escola

A escola ignora o que as crianças já sabem quando nela entram:

Disse João dos Santos (psicólogo educacional; 1913-1987): “o drama é que não há continuidade entre o que se aprende livremente antes de se entrar para a escola e aquilo que se aprende na escola”; antes de se entrar para a escola “aprende-se a viver e a conviver e num plano de relação verbal”, enquanto “o que se ensina na escola, é apenas a linguagem escrita, só tem que ver com a linguagem escrita, que é vista pela escola como se tudo o resto não tivesse importância nenhuma, como se o falar, o dialogar, o brincar não tivesse importância nenhuma”.
É que o importante na escola, para começar, é que o adulto se aperceba de que a criança já sabe imensas coisas. E a maior parte das vezes a escola e os professores ignoram que a criança já tem um saber, e que é um saber extraordinariamente importante, e partem do princípio de que o que elas sabem não tem nenhum valor, o que é perfeitamente errado e prejudicial.” No fim de contas, a escola pretende que “o que não é mensurável, quer dizer, o que vai até ao infinito, ao céu e às estrelas”, seja reduzido “a uma escala do mensurável”, pelo que “a criança que ainda está numa fase de instabilidade, que anda a percorrer o seu universo e a alargá-lo para o compreender”, vê-se reduzida “às dimensões de uma mesa, de um papel”. É por isso que “todas as dificuldades escolares têm que ver com um estado de tristeza da criança.” [mensagem «0112»]

A conversa de que resultou este excerto aconteceu há décadas: terá a escola entretanto melhorado a sua permeabilidade aos conhecimentos com que as crianças a elas chegam?



As aprendizagens no quotidiano resultam de iniciativas individuais e de grupo:

Um vídeo intitulado «Aprender, Viver e Trabalhar na Península de Setúbal», encomendado pelo Instituto das Comunidades Educativas e concluído em 1997, foi organizado em 4 partes: «Tocar, cantar, conviver, representar»; «Ler, escrever, falar, divulgar»; «Reunir, conservar, instruir, fazer»; e «Herdar, trocar, descobrir». Em cada uma destas partes ilustram-se aprendizagens no quotidiano.
Escreveu Ângela Luzia sobre ele: “Juntam-se diferentes gerações, contextos e interesses, mas procura-se destacar o que é transversal: todos os testemunhos refletem a importância da experiência coletiva, do processo de aprender para fazer, experimentar e criar com outros, ganhar confiança, partilhar saberes, procurar saber mais, alargar e diversificar experiências, do tornarmo-nos diferentes. Já então se reconhece a importância da escola, do que pode ser, mas também as suas limitações.” [testemunho «110» do blogue «Aprendizagens»; e texto de Luzia (2026)]

Em 2015, o Museu Nacional de Arte Antiga, pretendendo divulgar a exposição «Coming Out – e se o museu saísse à rua?», afixou réplicas de trinta e um dos seus quadros na Baixa de Lisboa.

Ao fim de dois meses tinham desaparecido catorze dessas réplicas. Mas quatro, o «Retrato do Conde de Farrobo», o «São Damião», o «Retrato do Senhor de Noirmont» e «Conversação», continuavam acessíveis à contemplação de qualquer um - mas do outro lado do rio, na Outra Banda:

                                                                  O «Conde de Farrobo», na Outra Banda

Segundo o jornal «Observador», os autores desta mudança foram dois jovens (que não se quiseram identificar), tendo um deles esclarecido: “Não é roubo, é um deslocamento.” Desde o início os dois pretendiam colocar estas réplicas perto das suas casas, num bairro entre o Laranjeiro (Almada) e Miratejo (Seixal): “Gostámos muito da atividade do museu e achámos que devia ser alargado a outros sítios”.

Quem também parece ter gostado foram os moradores do bairro situado junto da Avenida Professor Rui Luís Gomes. “
Ninguém tentou levar nem vandalizar, está intacto. Há pessoas que disseram que era o quadro mais bonito que já tinham visto”, conta um dos promotores da mudança. Ali, a pintura “ganha outra magnitude”; e seria bom que estes quatro quadros “levassem gente de fora ao bairro” para os ver, tal como acontece aos quadros que ainda estão no Chiado [mensagem «0087»].

Se se compreende a recusa de fazer equivaler «ensinar» a «transmitir», e se é tentador que a alternatica seja fazer equivaler o «aprender» a «construir», não será também de destacar que essa construção começa com uma «apropriação»?

Na escola, os currículos abertos resultam dos contributos de todos

As perguntas e as respostas de cada um são o contributo decisivo para as suas aprendizagens:

Queixou-se Karl Popper (filósofo da ciência; 1902-1994): “(…) a nossa pedagogia consiste em sobrecarregar as crianças com respostas, sem que elas tenham colocado questões, e às perguntas que fazem não se presta atenção”. “Esta é a pedagogia habitual: respostas sem perguntas e perguntas sem respostas.” [mensagem «0077»]

Penso que esta formulação é insuficiente: não se trata apenas de prestar atenção às «perguntas» que os aprendentes fazem: trata-se também de prestar atenção às suas «respostas». A relação entre quem ensina e quem aprende não será, afinal, um diálogo em que todos colocam questões e arriscam respostas?


Os saberes dos diversos colectivos são os principais apoios para qualquer aprendizagem:

Afirmou Jerome Bruner (psicólogo educacional e pedagogo; 1915-2016): “Há coisas que cada indivíduo sabe (mais do que ele próprio julga); mais ainda conhece o grupo ou é passível de ser descoberto por meio da discussão em grupo; e muito mais ainda se encontra armazenado algures – na «cultura», isto é, nas cabeças das pessoas mais sabedoras, nos directórios, nos livros, nos mapas, e por aí adiante.” [mensagem «0006»]

E dois dos fundadores da Etnomatemática, Ubiratan d`Ambrósio (1932) e Paulus Gerdes (1952-2014), mostraram como a ela é uma das vias para revelar saberes culturais.

O primeiro evidenciou os conflitos existentes entre as aprendizagens realizadas fora e dentro da escola: a “aptidão numérica «erudita» elimina a assim chamada aptidão numérica «espontânea». (...). Há uma crescente perda de utilidade para o modo tradicional de fazer aritmética (...). Uma vez indo à escola, a tendência é perder essas habilidades, e não ser capaz de substituí-las pela forma «erudita».” [mensagem «0101»]



E o segundo definiu assim a Etnomatemática: “é o campo que estuda ideias matemáticas nos seus contextos histórico-culturais”; “Cada povo – cada cultura e sub cultura – desenvolve a sua própria matemática, de certa maneira específica.” [mensagem «0010»]

A formulação de Ubiratan parece-me tímida, pois cabe a cada aprendente o direito a fazer a sua síntese entre a sua experiência e aqilo que a escola e outras instituições lhe proporcionam.

A diversidade dos saberes é favorecida pelos currículos abertos

Os «saberes» são muito mais do que «conhecimento»:

Boaventura de Sousa Santos (sociólogo) lembrou que a riqueza e a complexidade do paradigma da modernidade se tem mostrado “tão susceptível de variações profundas como de desenvolvimentos contraditórios”; e que ela assenta em dois pilares, o da “regulação” (princípios do Estado, do mercado e da comunidade) e o da “emancipação” (racionalidades “estético-expressiva das artes e da literatura”, “cognitivo-instrumental da ciência e da técnica” e “moral-prática da ética e do direito”). “Desde o início que se previra a possibilidade de virem a surgir excessos e défices, mas tanto uns como outros foram concebidos de forma reconstrutiva [... o que …] foi progressivamente confiada à ciência e, de forma subordinada, embora também determinante, ao direito. Promovida pela rápida conversão da ciência em força produtiva, os critérios científicos de eficiência e eficácia logo se tornaram hegemónicos, ao ponto de colonizarem gradualmente os critérios racionais das outras lógicas emancipatórias.” [mensagem «0057»]

A hegemonização do paradigma da modernidade pelas racionalidades «cognitivo-instrumental» tem implicado o empobrecimento do seu pilar «emancipatório». Mas essas dificuldades são agravadas pela tendência para a subordinação destas racionalidades aos princípios regulatórios do «Estado» e do «mercado».
Os «saberes» poderão ser a expressão sincrética das persistentes tentativas de estabelecer um novo equilíbrio entre a «emancipação» e a «regulação».


Nova fonte: PDF de Luzia (2026)

Imagens: capas de livros de João dos Santos e de Ubiratan d`Ambrósio; e fotografia de André Costa (parcialmente reproduzida)

2 comentários:

  1. Estarei a dar os primeiros passos numa participação em blog... e dada a minha tremenda iliteracia neste campo nem sei se estou a conseguir comunicar... tenho apeciado muito o que tenho lido do que tens publicado, gostei especialmente do painel da biodiversidade, em Outubro!

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  2. Obrigado, Vera!
    Para mim, as «mensagens» ajudam a clarificar uma pequena parte dos saberes pessoais. E as «páginas» (como esta, sobre o Currículo) ajudam a organizar um pouco mais longe alguns desses saberes, ou a prestar informações adicionais (como é o caso das Fontes).

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