sexta-feira, 31 de julho de 2026

[0380] Factos e argumentos sobre a Educação (VIII): e se os espaços escolares começassem a funcionar em rede?

Fiz estágio na Escola Poeta António Aleixo, em Portimão. E durante os dois anos que ele durou (1983-85) aluguei o andar superior de uma casa situada na periferia Norte da cidade.
Um dia estava num café próximo, provavelmente preparando aulas, ou anotando as que já tinham acontecido, quando se ouviu o forte som de um vidro a cair e a partir-se no chão: era um copo que estava numa plataforma colocada na parede, um bocado acima das cabeças dos clientes.
No breve debate que esta queda originou, entre o proprietário do café e alguns dos clientes, foram sugeridas várias possibilidades justificativas para a queda espontânea do copo:
* O copo tinha uma batata doce assente na sua boca, em contacto com água, o que lhe desenvolvera raízes e folhas;
* A dupla queda tinha sido ajudada tanto pela base fina do copo como pelo facto de as folhas da batata doce estarem pendentes para fora da plataforma, em vez de parcialmente apoiadas nela;
* Antes da queda, quase toda a água já se tinha evaporado, diminuindo o peso total do copo;
* E o peso da batata doce também diminuíra, pois grande parte das folhas fora por ela alimentada.


No caso que estou a descrever
a base do copo era mais estreita e os longos
ramos com folhas saíam para fora do copo

Até hoje lembrei-me múltiplas vezes deste acontecimento, pensando que ele era um exemplo muito interessante daquilo a que alguns chamam Etnociências: as pessoas comuns observam, colocam questões ao que observaram, tiram conclusões e, com base nelas, desenvolvem teorias sobre o que acontece à sua volta. E como falam uns com os outros sobre isso, vão transformando as suas teorias em algo partilhado.

Se um professor de Física estivesse presente naquele café, preferiria explicar o que se passou com o copo usando ferramentas teóricas como «centro de gravidade», «força» e «momento». Mas, na sua ausência, ninguém precisou desse tipo de conceitos, pois dispunham de outros.

Existindo então «conhecimentos populares», mais ou menos comunitários, paralelos aos conhecimentos da Ciência (e mais antigos do que eles), é bastante aceitável pensar que, numa escola, possam «entrar» situações como a que descrevi, como ponto de partida para o trabalho entre alunos e professores. Para tal, é necessário que o professor esteja aberto a ouvir os alunos; que, consequentemente, estes se convençam de que vale a pena falarem com o seu professor; que passe algum tempo até que os alunos comecem a trazer situações que lhes pareceram intrigantes; que haja algum espaço para se conversar sobre isso com o professor; e que este se prepare para prolongar a curiosidade dos seus alunos com experiências em que uns conhecimentos são confrontados por outros.
Para o professor, uma possível estratégia poderá ser esta:

 

O acontecimento a explicar é descrito pelos alunos que o observaram;
Abre-se algum tempo para que todos sugiram hipóteses explicativas (tal como aconteceu no café);
O professor organiza uma experiências para testar cada uma das hipóteses colocadas pelos alunos;
Os alunos interpretam os resultados desses testes com base nas suas próprias teorias;
O professor propõe ferramentas da Ciência que também interpretam as conclusões dos testes;
Todos confrontam as diferentes interpretações dos testes e procuram uma explicação que articule logicamente os resultados de todo o processo seguido;
Se necessário, fazem-se mais testes, propostos pelos alunos ou pelo professor.

 

Se se pensar no exemplo que dei acima, tratar-se-á, num primeiro momento, de algo a tratar exclusivamente em aulas dedicadas à disciplina da Física. Mas haverá outros exemplos que podem colocar em diálogo os «conhecimentos etnocientíficos» com os «conhecimentos científicos» abrangendo outras disciplinas, como a Biologia e a Matemática, ou simultaneamente a duas ou mais delas, colocando até questões às áreas das Artes e das Humanidades.

Situações como a que descrevi, vindas das «culturas» das «comunidades educativas» em que os alunos estão imersos, ao entrarem na escola tanto questionam a forma unilateral como os conhecimentos académicos estão organizados, como questionam a organização tradicional da escola.
O investigador Rui Canário (1948-2025) já havia chamado a atenção para a ligação entre estes dois questionamentos: para ele, se se pretende «mudar a educação» é indispensável colocar em causa os “invariantes organizacionais da escola”: as turmas, os horários, as disciplinas, etc.. Ora as reformas educativas implementadas nas últimas décadas, afirmando-se sempre contribuir para a «mudança», (quase) nada mudaram na «organização escolar».
Mas está nas mãos das escolas encontrar vias para alterar uma das facetas inabaladas da sua organização, se começar a quebrar o isolamento mútuo em que estão os seus espaços experimentais (laboratórios, oficinas), de comunicação (biblioteca central e bibliotecas das diversas disciplinas; intranet, se houver) e de expressão (ateliês, ginásios, campos de jogos). Fazendo-o com o apoio de grupos de professores e de alunos, a forma de educar começará, certamente, a mudar.


Imagem
: solicitei ao Copilot do meu computador uma “Imagem de uma batata doce sobre um copo com água a deixar crescer folhas” e ele encontrou a figura que inseri acima

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