UM PROBLEMA DE MATEMÁTICA DE MALBA TAHAN
2ª parte
Narrador matemático (de novo
confiante):
Olhando para a história dos três marinheiros, que representará a expressão (8 x – 65) : 81?
Público:
Bom, o x
inicial era o número de moedas doado pelo proprietário. E as sucessivas
expressões eram o que resultava das intervenções dos três marinheiros e, no
fim, do tesoureiro …
Então (8 x – 65)
: 81 é o que cada um dos marinheiros do tesoureiro!
Narrador matemático:
Certíssimo. Portanto, terá de ser um número inteiro, pois houve moedas
desaparecidas mas não houve moedas cortadas ao meio …
Agora temos de considerar o seguinte nessa expressão: multiplicar x por 8 dará
um número inteiro; retirar-lhe 65 também (embora possa ser negativo). Mas
dividir (8 x – 65) por 81 só por sorte dará um número inteiro!
Ou seja, não é a partir de qualquer x que os três
marinheiros e, no fim, o tesoureiro fariam as quatro subtrações de 1 moeda seguidas das divisões por 3 obtendo sempre
números inteiros!
Temos de chamar o Diofanto!
Público:
«Dio» quê?
Narrador matemático (orgulhoso):
DIOFANTO. Um matemático grego, que trabalhou em Alexandria por volta do século
III d. C. e que é considerado o «pai da Álgebra».
É melhor ouvi-lo em pessoa, mas, por favor, não lhe façam perguntas.
Compreendem, não é …?
Diofanto (surgindo sob uma
luz que se acende lentamente num dos cantos; e depois falando muito
pausadamente):
Olá!
É verdade, eu apercebi-me de situações matemáticas que para vocês, hoje, são
frequentes: são aquelas em que temos de estudar um polinómio à medida que a sua
variável assume diferentes valores (estou a usar as vossas palavras, pois as do
meu tempo eram diferentes).
O vosso caso é desse tipo:
(8 x – 65) : 81
é um polinómio, podemos dar a x infinitos valores e
de cada vez o resultado desta expressão é diferente. Interessei-me por isto pensando
só nos valores inteiros do resultado, pelo que decidi fazer assim: (8 x – 65) : 81 = y, devendo portanto o y ser inteiro.
Isto é uma «equação», e vocês chamaram a este tipo «equação diofantina linear»,
tendo o «linear» a ver com o facto de nenhuma das «variáveis» (o x e o y) surgir aqui com um
expoente superior a «1» (portanto, nem ao quadrado, nem ao cubo, etc.). E o
«diofantina» tem a ver com o meu nome, claro.
Sim, antecipando-me à vossa dúvida: há outras «equações diofantinas» que não
são lineares, pelo que são de tratamento muito mais difícil.
O vosso Narrador matemático poderá
ajudar-vos a resolver esta equação. Tenham um bom resto de dia …
Público (levanta-se e aplaude Diofanto,
enquanto a luz que o iluminava se vai desvanecendo)
Narrador matemático (aclarando a voz):
Há um pormenor da história que ainda não vos contei …
Narrador da história (reaparecendo subitamente):
Não tínhamos combinado
quem falaria nisso, mas penso que faz parte da história que me incumbe a mim
contar. O Malba Tahan acrescentou uma informação importante sobre o número
inicial de moedas: elas seriam entre 200 e 300!
Narrador matemático (pacientemente):
Sim, era esse o pormenor …
Peço-vos então o seguinte: transformem (8 x –
65) : 81 = y numa equação com coeficiente inteiros.
Público:
O que é isso?
Narrador matemático:
Ah! Sim! Vou explicar-vos: é uma equação do tipo a x + by = c, em que o «a», o
«b» e o «c» são inteiros.
Público (depois de uma curta demora):
Fica 8 x = 81 y
+ 65.
Narrador matemático:
Deixem-me agora ser eu a dar o próximo passo, pois é um bocado manhoso.
Se em vez de escrevermos 8 x = 81 y + 65 escrevermos 8 x = 80 y + (y + 65) e depois escrevermos x = 10 y
+ (y + 65) : 8, e sabendo que o x é um número
inteiro, então para que 10 y + (y + 65) : 8 também seja
inteiro o (y + 65) terá de ser divisível por 8.
São capazes de me dar um exemplo de y inteiro que faça
com que (y + 65) seja divisível por 8?
Público (respondendo não muito depois da
pergunta do Narrador):
Se o (y + 65)
for igual a 72
é divisível por 8.
Para isso o y
tem de ser igul a 7.
Narrador matemático:
Certo.
Então se y for igual a 7, qual o valor de x?
Público:
Dá x = 79!
Narrador matemático:
Certo.
Mas nós queremos que x esteja entre 200 e 300 …!
Público:
Ah! Pois, pode haver outras soluções para y!
Público (ao fim de algum tempo de
silêncio):
O y
também pode ser igual a 15, a 23, a 31, … é de 8 em 8.
Narrador matemático:
E quais os correspondentes valores de x?!
Público:
O x
será para esses casos igual a 160, a 241 e a 322.
Ah! Então o x
terá de ser o 241,
pois está entre 200
e 300!!!
Incialmente, havia na caixa 241 moedas de ouro! Este problema do Malba Tahan
está resolvido!!!
FIM
Comentários
entre alguns grupos, à saída da peça:
Então o 1º Marinheiro ficou inicialmente com 80 moedas e no fim com mais 23, ou
seja, com 103 moedas no total. O 2º Marinheiro ficou com 53 mais 23, portanto
com 76 moedas. E o 3º Marinheiro com 35 mais 23, no total com 58 moedas.
Grande
diferença!
E se somássemos para ver se bate certo?
103 + 76 + 58 dá 237: não dá!
Espera, faltam as 4 moedas, as que sairam uma a uma: com elas dá as 241. Bate mesmo
certo!
Acham que os Marinheiros acabaram por emendar equitativamente o erro que
cometeram?
Não sabemos, mas seria giro se o tivessem feito!
E com o total de 237 moedas que tinham dariam 79 a cada um, sem precisarem de
voltar a deitar fora uma delas!
Fontes: vídeo do Ledo Vaccaro
(conclusão do problema); Wikipédia (sobre Diofanto e as equações diofantinas);
imagem das máscaras de teatro, Co Pilot do meu computador (recorrendo a
ferramentas de IA)
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