Para alguns comentadores das questões educativas o «elevador social» é a oportunidade de que «certos alunos» dispõem para sair das situações de «pobreza» em que nasceram: se estudarem e se através do estudo «tirarem um curso», encontrarão certamente um «bom trabalho», assim atingindo um patamar social superior.
É claro que muitos de nós querem ter, para si próprios, para os seus próximos e
até para toda a gente, uma vida melhor, pelo que a ideia de «elevador social»
parece trazer uma esperança à concretização dessa aspiração. Por isso, o que
uns desejam para as suas vidas e o que outros lhes prometem através da
educação, parece fazerem sentido juntos.
Esses comentadores, no entanto, nunca se lembram de dizer, sobre aqueles que
não terão necessidade de «elevador social» (porque as suas famílias lho
proporcionaram à partida), que «estudar» é importante para se manterem no
patamar social em que já estão.
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| Primórdios do Elevador de Santa Justa (Lisboa) |
A palavra
«elevador» sugere fortemente a existência de «níveis sociais», cujos patamares
se vão subindo, até, eventualmente, se chegar ao topo, onde se encontram umas
tantas pessoas «exemplares» de que ouvimos de vez em quando falar. Será esse o
«nível ideal», aquele que nos permite usufruir de um «vida ideal »? Ou
estaremos a confundir uma imagem «quantitativa» (ir subindo) com uma imagem
«qualitativa» (tipo de vida)?
Subir, patamar a patamar, conduzirá ao tipo de vida a que cada um inicialmente aspira?
E, ao «ir subindo», estaremos conscientes do «tipo de vida» correspondente a
cada plataforma do elevador, e ao qual teremos de nos adaptar? Estarão aqueles
que «sobem» conscientes das transformações mentais e sociais a que as suas
vidas serão sujeitas se não pensarem por eles próprios a «vida melhor» que
desejam?
Ou seja: não será a metáfora do «elevador» uma forma de impor o tipo de
sociedade que hoje existe, que tem sido incapaz de proporcionar, à partida,
condições materiais de vida decentes para todos e que não tolera a diversidade
de aspirações a que temos direito?
Acrescentam, ainda, aqueles que defendem o papel deste estranho elevador na educação:
para subir é preciso ter «mérito».
Esta exigência do «mérito» já foi abordada na mensagem «307», onde a contrapus à necessidade de promover o bem comum». Gostaria de insistir nessa
contraposição através de um exemplo, que pode ser o de um qualquer jogador de
futebol, nascido pobre, que se tenha tornado uma estrela desportiva, rica e famosa.
Há nesta «ascensão», em primeiro lugar, o papel da herança genética: se ela não
for favorável, ele não chegaria onde chegou desportivamente. Isso impõe uma
importante restrição à metáfora do «elevador social»: ou os seus genes lhe
trazem uma boa possibilidade de sucesso (no desporto ou em qualquer outra área),
ou o «elevador» não o deixa entrar.
Depois, há o desafio do esforço necessário para aproveitar os genes muito
favoráveis (que são raros): se o desportista se dedica a desenvolver as suas potencialidades,
tem hipóteses de ser reconhecido pelos resultados que obtém, e vai subindo o
elevador. Mas, que acontece tão frequentemente a estas estrelas, à medida que vão
desembarcando nas sucessivamente mais altas plataformas sociais? Desmesura
de dinheiro, ego desmedido, arrogância social. Isto é: através do elevador
chega-se a um topo social que, quando se está nas plataformas mais baixas quase
sempre se critica.
Falta-nos, portanto, o trabalho de imaginar outros ideais de vida,
materialmente bons para cada um e diversificadamente solidários entre todos.
Pelo que a metáfora não pode ser a do paupérrimo «elevador social», mas antes a
da «emancipação social» (hoje em dia tão esquecida).
Como consequência, a educação não se pode limitar a aceitar os bons resultados
obtidos por uma pequena parte do nosso ser: ela precisa de visar o desenvolvimento
de um mais largo conjunto de competências, tanto emocionais como sociais.
Fontes inspiradoras: notícias dos
jornais
Fotografia: Pedro Esteves (exposição «Lisboa
desaparecida: patente no Palácio Pimenta

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