As provas combinadas mais conhecidas no Atletismo são o Heptatlo, para as Mulheres, e o Decatlo, para os Homens.
Tratando-se de uma combinação de provas, e não de uma prova única, o Heptatlo e
o Decatlo exigem o recurso a uma tabela que
converta em pontos os resultados obtidos em cada uma das provas que os compõem
(tempos das corridas e distâncias dos saltos e dos lançamentos). Assim, a
competição entre os diferentes atletas é decidida confrontando as respectivas pontuações
totais.
No início da década de 1960, a meio da minha adolescência, comecei a interessar-me
pelo Pentatlo e pelo Decatlo, pelo que me surgiu a necessidade de dispor de uma
tabela, ferramenta que, naqueles anos, apenas era acessível a um muito restrito
número de pessoas que, claro, não me incluía.
Decidi então criar uma tabela própria. Depois de pensar durante algum tempo cheguei
a uma solução: os desempenhos nos saltos e nos lançamentos seriam pontuados aplicando
a «proporcionalidade directa» à sua extensão;
e os desempenhos nas corridas seriam pontuadas aplicando a «proporcionalidade inversa»
à sua duração.
Seria portanto simples, só sendo necessário fixar a que marcas corresponderiam
os 1000 pontos de cada prova (os «1000 pontos», conforme me apercebera pelos
jornais, era a pontuação que, mais ou menos, equivalia a um resultado entre o
«bom» e o «muito bom» numa prova não combinada, portanto ainda um pouco
distante do correspondente máximo mundial).
Já não me recordo das marcas a que decidi atribuir os 1000 pontos, mas vou
agora supor que seriam a de 10,4 segundos para a corrida de 100 metros e a de
7,76 metros para o salto em comprimento (estas são as marcas a que as tabelas actualmente
adoptadas nas competições internacionais fazem corresponder os 1000 pontos).
Então, os 13 segundos de que eu precisava para terminar a primeira destas
provas equivaleriam a (10,4 x 1000) / 13 = 800 pontos.
E os 5,7 metros que saltava no comprimento equivaleriam a (5,7 x 1000) / 7,76 =
734 pontos.
Este meu modo de estabelecer pontuações para as provas individuais tinha várias
fraquezas. Uma delas tornou-se-me evidente pelo facto de eu ser melhor no salto
em comprimento do que na corrida de 100 metros e, no entanto, obter melhor
pontuação nesta segunda prova.
Uma outra tinha a ver com a atribuição de pontos a desempenhos que nunca
ocorrem nas competições de atletismo, como os saltos em comprimento excessivamente
curtos (por exemplo: meio metro) e as corridas de 100 metros demasiado lentas
(por exemplo: 10 minutos); deste modo, a acuidade do meu método era muito enfraquecida.
E a última fraqueza tinha a ver com os valores mais altos da curva de pontos correspondente
a cada prova: quanto mais um resultado estivesse próximo de ser «excepcional», mais
difícil seria a sua progressão (pois se está no limiar das potencialidades
humanas); portanto, nestas circunstâncias, qualquer progresso (por exemplo:
meio metro no salto em comprimento; ou meio segundo nos 100 metros) deve ser pontualmente
valorizado do que se fosse obtido se o resultado fosse «médio» ou «bom» (aonde
as proporcionalidades directa e inversa se aplicam melhor).
Algum tempo depois deste meu esforço foram publicadas as tabelas de Fernando Amado
(1899 – 1968) para as provas combinadas do Atletismo, que chegaram a ser
adoptadas nalguns países, mas não nas provas internacionais. Comprei um
exemplar dessas tabelas, tendo-me então apercebido de elas se baseavam no
estudo estatístico dos resultados das várias provas, tendo deste modo em conta
os resultados situados nos extremos das curvas de pontuação (o 2º e o 3º pontos
fracos do meu método). Era algo que estava para além das ferramentas de que eu
dispunha …
Desde as tabelas de Fernando Amado até hoje foram construídas diversas outras
tabelas, que têm tido crescentes apoios estatísticos e a colaboração
internacional dos respectivos estudiosos. As que actualmente têm a aprovação da
IAAF
(Federação
Internacional das Associações de Atletismo) atribuem 1 ponto a uma
corrida de 100 metros que dure 17,83 segundos e a um salto em comprimento de
2,25 metros. E segundo elas os meus 13 segundos na corrida dos 100 metros
equivaleriam a 468 pontos e os 5,7 metros no salto em comprimento a 523 pontos.
Por curiosidade, aqui vai a comparação entre as tabelas actualmente em vigor
para a IAAF e as que, implicitamente, corresponderiam ao meu método, primeiro
para a corrida dos 100 metros, depois para o salto em comprimento (uso valores
arredondados):
Não me
importou muito ir descobrindo as limitações desta minha tentativa de autonomia
como adolescente: se não o tivesse feito não perceberia tão bem o que depois
fui descobrindo no trabalho daqueles que tinham muito mais experiência do que
eu!
Fontes: PDF do IAAF (2001); Wikipédia
(para Fernando Amado)
Gráficos: Pedro Esteves

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