No inicio da décima primeira parte do livro «Uma história do mundo em 100 objetos», Neil MacGregor refere-se assim ao período que decorreu entre 700 e 900 depois de Cristo: enquanto na Europa se atravessavam “tempos caóticos”, noutras partes do mundo as “civilizações tang, chinesa, do império islâmico e do império Maia, na Mesoamérica, estavam no seu auge.”
Dos cinco objectos do British Museum que MacGregor seleccionou para ilustrar o esplendor palaciano deste período, eu escolhi uma representação de Tara do Sri Lanka, que, para os devotos budistas, representava o “espírito da compaixão generosa”. Trata-se de uma estátua de bronze maciço, fundida como uma única peça, e depois dourada. O seu rosto é semelhante aos do Sul da Ásia e tem cerca de 3 / 4 da altura de uma pessoa adulta:Diferentemente
do actual modo de ver ocidental, esta deusa combinava, sem qualquer problema, o
seu papel de protetora espiritual com a sua imagem de sensualidade. “Tara não existia para ser adorada, mas para ser o foco de
meditação das qualidades que encarna: a compaixão e o poder para salvar.”
O Sri Lanka, que está separado da Índia por cerca de 40 quilómetros de mar, era,
no final do Iº milénio depois de Cristo, um centro do comércio marítimo no
Oceano Índico, exportando, nomeadamente, rubis e granadas.
Tara, que, inicialmente, era a deusa-mãe hindu, foi mais tarde adoptada pelo
budismo. Este, tendo nascido no Norte da Índia, onde Buda ensinou por volta de
500 a. C., foi-se transformando num “sistema
filosófico e espiritual destinado a libertar a alma individual da ilusão e do
sofrimento deste mundo”, e o Sri Lanka estava-lhe exposto, quando esta
estátua foi produzida, há mais de mil anos.
Tendo sido produzida para uma corte de idioma cingalês, influenciada
estilisticamente pelo mundo tâmil e pelo das cortes hindus do Sul da Índia, esta
estátua, era, usando uma linguagem moderna, uma “imagem
inclusiva”, apesar de, na altura, como ainda hoje, as influências sociais
e culturais que lhe deram origem no Sri Lanka tanto cooperarem como, noutros
momentos, guerrearem.
Do diálogo entre budismo e hinduismo surgiram muitas outras manifestações ainda
hoje visíveis em estátuas e edifícios do Sudeste asiático. E a elas se podem
juntar os milhões de pessoas que, especialmente no Nepal e no Tibete, continuam
actualmente a invocar o auxílio da deusa Tara.
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Fonte: livro de McGregor (pp.
336-341)
Fotografia: Wikipédia
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